Ferreiro
- mais uma das montanhas esquecidas.
Por Giancarlo Castanharo (Cover)
Em
abril de 1994 participei de um grupo da A.M.C. que subiu
o Ferraria. A extensa caminhada e o pequeno número
de escaladas tornava empolgante uma ascensão naquelas
montanhas da região Norte da Serra do Ibitiraquire.
O livro de cume do Ferraria registrava os seguintes números:
3 escaladas em 90, 1 escalada em 91, 3 escaladas em 92,
2 em 93. Em 94 fizemos a segunda e a terceira ascenssão.
As trilhas são muito fechadas e é comum escutarmos
histórias de roubadas e insucessos nesta escalada.
Nas nossas escaladas de 94 ficamos motivados em tentar uma
rota no Ferreiro, que provavelmente devia estar sem acesso.
Com 1.563 m de altitude, o Ferreiro é pequeno se
comparado aos gigantes do Ibitiraquire, mas em 1995 resolvemos
gastar uns dias numa tentativa.
Era fevereiro de 95, eu (Cover), o
Gustavo (Tavinho), o Alexandre ("Sassá")
e o Silmar formamos o grupo. Saímos num sábado
de madrugada com destino a Terra Boa. Fomos premiados
com um belo dia, céu azul, poucas nuvens, tudo
certo para uma bela caminhada. Escolhemos a Trilha da
Conceição para a aproximação
.
Chegamos
cedinho na porteira da Fazenda Nova Querência, era o
começo do fim de nossa aventura. Batemos literalmente
com o "nariz na porta". Nós todos contentes
e realizados batendo palmas no portão e falando: "
- Hoje vamos subir o Ferreiro! Beleza! Beleza! ". Veio
o caseiro com uma cara feia e falou: " - Por aqui ninguém
pode passar! O dono falou que se for preciso é para
soltar os cachorros! ". Nós já conhecíamos
muito bem os cachorros de algumas passagens pela fazenda (nada
mais nada menos que uma dúzia de Rotweillers), que
estavam num canil a uns 100 metros do portão, latindo
e loucos para pularem a cerca e nos transformar em carne desfiada
de barreado. Nem pensamos em tentar passar escondido, o jeito
foi dar meia voltar e ir para o PP. Sacanagem, não?
Tudo isso ocorreu por causa de um bando de irresponsáveis,
que se diziam excursionistas e passaram pela fazenda meses
antes de nós e não seguiram regras básicas
de educação. Passaram fazendo algazarras, jogando
lixo e o pior, deixaram uma porteira aberta que permitiu que
duas boiadas se misturassem e dois touros de raça brigaram
até que um morreu. E o coitado do touro valia alguns
mil reais! Acho que este fazendeiro nunca mais vai querer
ver em sua frente um grupo carregando mochilas e dizendo que
vai para Serra! E graças a isso, o acesso a bela e
histórica Trilha da Conceição está
impossibilitado até hoje.
Vários anos se foram, e sempre quando
encontrávamos os companheiros surgia a perguntinha:
" - E o Ferreiro ? Quando é que vai sair?".
Achávamos que teríamos que tentar um acesso
pelo litoral, lá por Bairro Alto. Somente no começo
do ano 2000 tomamos vergonha na cara e resolvemos de uma vez
por todas investir no Ferreiro. Formamos um novo grupo: eu
(Cover), Gustavo (Tavinho), Pacheco, Emerson ("Forest
Gump") e o Fabiano. Saímos no dia 11 de janeiro,
e conseguimos um esquema para passar nas fazendas. Fizemos
a Trilha da Conceição para nos aproximar ao
máximo da crista escolhida. Iniciamos a subida logo
depois do meio-dia, aproveitando o leito de um riacho para
ganhar tempo, mas a vegetação não queria
facilitar nossa brincadeira. Bambus, espinhos e caraguatás,
tudo isso para aumentar a ralação. Demoramos
algumas horas no meio da floresta até que a vegetação
começou a baixar. Fomos premiados por um temporal que
veio do litoral e que serviu para resfriar o calor infernal
que estava na subida, e melhor ainda, fez com que as botucas
e os pernilongos sossegassem um pouco. Após o temporal
continuamos por uma vegetação rala e enfrentamos
uma parte bem íngreme. Pegamos outro temporal, desta
vez com granizo. Estávamos próximos do cume
e resolvemos continuar. Chegamos num dos cumes às 19
horas, depois de várias horas de mato fechado.
O cume é formado por três elevações
que formam três cumes isolados, dois praticamente com
a mesma altitude e um mais baixo mais para o oeste. Achamos
uma haste de ferro galvanizado no cume do meio, parecia ser
um porta bandeira. Mais adiante encontramos alguns rastros
desencontrados, que talvez fosse de alguns montanhistas que
ali estiveram anos antes. Resolvemos acampar em um local mais
baixo para não virar alvo dos raios que fulminavam
em temporais que se dirigiam para nossa direção.
Tivemos que armar rapidamente nosso acampamento, pois um temporal
que estava à leste do PP atravessou a Serra e em poucos
minutos já estava sobre nós.
Na
manhã seguinte aproveitamos o tempo bom para
tirar fotos e ir até o terceiro cume. Começamos
a descer tarde e resolvemos seguir a Trilha da Conceição
até Bairro Alto e retornar por Antonina. No final
da caminhada pagamos o preço de caminhar na Mata
Atlântica em pleno verão, mais dois temporais
e a desagradável companhia de uma nuvem particular
de botucas e pernilongos que não davam um minuto
de
sossego. A meia hora de Bairro Alto resolvemos jogar o Emerson
numa poça de lama, porque ele tinha passado no vestibular,
isso nos atrasou e chegamos em Bairro Alto 20 minutos antes
do ônibus, que é o único, e constatamos
algo complicado, a pochete da vítima tinha ficado
lá na poça de lama com os documentos e o dinheiro
do ônibus! Estávamos decididos a acampar por
ali mesmo, pois era necessário +/- 45 minutos para
resgatar a tal pochete, tempo este que não tínhamos.
Por sorte o Tavinho e o próprio Emerson fizeram uma
maratona e conseguiram resgatar a pochete e chegar junto
com o ônibus. Depois dos atrapalhos fomos embora felizes
e sorridentes, pois cumprimos uma meta que a mais de 5 anos
estava para ser feita.