Montanha, meio ambiente, amizade e, principalmente, Jesus
atualizado em 27.05.2003
AS ALTURAS
DOS MONTES PERTENCEM
A DEUS.

Salmo 95:4
 

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A conquista do Pico Paraná. Por Vita.

A história do montanhismo no Paraná tem dois grandes momentos: o primeiro, com a ascensão do Pico Marumbi, considerado até então, ponto culminante do estado, conforme "abalisada medição do engenheiro Leopoldo Weiss" que lhe atribuiu 1800 metros;
o segundo se dá com as novas medições do notável geógrafo e geólogo Reinhard Maack, em 1940, através de observações de campo.

O PICO PARANÁ É O MAIOR?!
Enquanto conferia rumos e altitudes, munido de seu inseparável teodolito, constatou assombrado a existência de duas elevações bem próximas ao Marumbi, com cotas maiores do que ele: Leão e Angelo. Ao certificar-se da altitude, outro susto: estabelece a marca de 1547m contra os 1800m anteriores.
Prosseguindo sua análise orográfica, alcançando o quadrante norte, verifica assustado no limbo das altitudes angulares verticais, o registro de alguns valores ainda maiores. Refaz as leituras e não satisfeito, desejando confirmar estas descobertas espetaculares, fez outras sete incursões à Serra do Mar, com as mais variadas aberturas azimutais, que lhe permitiram descobrir o Pico Paraná.
Depois de todo o rigoroso procedimento para confirmação das descobertas, Maack providenciou legitimar essas observações e retificações junto aos órgãos públicos responsáveis. Na condição de estrangeiro convidado para trabalhos de levantamentos, nominou cada cume descoberto com nomes de importantes personalidades da nossa história (Eusébio da Mota - pioneiro da nossa geologia; Manoel Ribas - responsável pela vinda de Maack ao Brasil; Maneco Facão; Getúlio Vargas - então Presidente da República; Hans Staden - primeiro cronista alemão de nossas plagas; Ulrich Schmidel - primeiro alemão que atravessou nossas terras; entre outros). Acontece que as leis brasileiras que regem a toponimia dos acidentes geográficos, vedam totalmente o uso de nomes de pessoas vivas ou mortas. Maack, além de seus dotes profissionais, era um profundo pesquisador da nossa história e, diante da notícia, num rasgo de sua genialidade, decidiu por utilizar-se exclusivamente de vocábulos indigenas. Assim explica-se as substituições dos nomes anteriores por: Caratuva, Itapiroca, Ciririca, Camacuan, Camapuan, Tucum, Tupipiá e assim por diante. Por isso aborrece-nos a insistência de muitos escaladores que teimam em denominar um dos topes para o Pico Paraná (Pedra do Grito) de Getúlio. É uma denominação histórico-legal errada. Já é tempo de corrigir essa deficiência cultural!

EVEREST PARANAENSE
Fácil imaginar o impacto dessas decobertas nos meios marumbinistas, no estado e até nacionalmente. Difícil conter os ânimos na busca desse "Everest"... mas como localizar esse ponto máximo?
Imagine a situação no cenário de 1940: a única estrada para São Paulo, seguia pelo Bacacheri, Atuba, Bocaiuva do Sul, Capitão Bonitos, etc. E para o litoral só havia a estrada da Graciosa, que passava por dentro de Quatro Barras. Não existia nenhuma BR. Era tudo puro sertão; uma mini-amazônia.
Por onde iniciar o ataque? Face leste? Face oeste? Cacatú, Guaraqueçaba e cercanias só eram atingidos por via marítmo-fluvial. Debaixo de acaloradas discussões, finalmente decidiu-se pela via oeste. Aproveitou-se da Graciosa e na altura da casa dos Garbers, foram para Campina Grande do Sul (Timbó na época) para ali consultar a população rural.

Convém lembrar ainda que, nesse tempo, não havia saco de dormir, as barracas eram de lona grossa e pesada, estilo canadense e sem forro. Alimentação exclusivamente à base de enlatados e spaguetti com sardinha. As botas eram de couro, cano alto, costuradas e pregadas, e normalmente, após muita umidade, tinham suas costuras estouradas e tachinhas invariavelmente machucando a sola dos pés, com sérios revezes para a marcha. Lanterna comum de duas pilhas e nunca impermeáveis. Era ainda obrigatório o emprego do facão, uma vez que a selva era inóspita e exigia perfeita abertura de picadas para garantir o retorno e sobrevivência. Estávamos, como dissemos, em uma pequena amazônia.

A CONQUISTA
Finalmente, no dia 28 de junho de 1941, parte o trio marumbinista composto por Maack, Stamm e Mysing, acompanhado de vários mateiros. A epopéia durou dezoito longos dias, com marchas e contra-marchas com veículo alugado, pela rota tradicional: Av. João Gualberto, Juvevê, Bacacheri, Atuba, Palmital, Canguirí, Quatro Barras, Elpídio (parada dos ônibus). A seguir, encruzilhada para Timbú, Taquari e Praia Grande. Avaria no carro provocada pelas pedras na pista e providencial passagem de caminhão. Acolhidos pelo Juca Órfão (José Gonçalves Nogueira) que providenciou cargueiros e mateiros. Barraca montada junto à fabriqueta de farinha de Mandioca. Após o almoço, subida num outeiro próximo na vã tentativa de estudar o ataque. Infelismente o Caratuva cobria o objetivo. Decidiram tentar via Camacuan.

Partem dia 29 de junho de 1941, com o apoio de 2 cavalos providos de cangalhas feitas com balaios de bambú, conduzidos pelos tropeiros Dulcidio e José Aldino. Integravam a expedição dois mateiros, Manoel Bacha e Manoel Teles, mestres no manuseio de foices e Chico Tigre como guia. Ao anoitecer montaram acampamento na base do Camacuan.
Todos os dias cumpriam este ritual; armar barracas, preparar a fogueira e cozinhar duas panelas de feijão preto, para ser deglutido de manhã e à noite, acompanhado de farinha. Almoço à base de broa preta, manteiga, toicinho ou schmierwurst (patê rosado). Invariavelmente, durante toda a empreitada, o despertador de bolso do Stamm disparava às 5 horas, para o Aldino ativar o fogo e colocar as panelas de feijão, e às 6 horas, alvorada geral.

A ESCALADA PROPRIAMENTE DITA
Dia 30. Largaram os cavalos e partiram para a escalada propriamente dita, concluindo a primeira etapa às 15 horas. Enquanto ajustavam as coisas, Maack procedia os estudos e apontamentos necessários. Stamm e Mysing resolveram avançar no programa e alcançar o Tucum. Antes, acirrada discussão para identificação do Pico Paraná. Mysing, gritando entusiasmado, prometeu comer uma vassoura se o "aquele ali" não fosse o PP. As condições do terreno, agora constituído de campos de altitude, facilitou a conquista do novo ponto, que por vários dias, enquanto o pessoal abria caminho com foices e facão, tornou-se o acampamento principal. Dois grupos se revezavam de hora em hora, na dura faina da picada: Stamm e Chico Tigre; Mysing e Aldino. Os dias 2, 3 e 4 de julho foram dedicados a atingir o PP mais ou menos numa linha direta, mas sofreram horrores na tentativa de transpor o profundo vale que os separava do Cerro Verde. No dia 4, uma rápida mudança de condições atmosféricas trouxe a certeza de que a coisa ia piorar. Diante das informações recebidas diariamente pelos batedores, Maack ordenou o recuo para Praia Grande, percebendo que aquela não era a rota ideal.

SEGUNDA TENTATIVA
No final do dia 5, chegam novamente ao ponto de partida.
O plano agora é tentar via Caratuva, rota que um morador da região já conhecia. Dia 7 de junho, incorporados de Josias Armstrong e Benedito Lopes de Castro, partem com destino ao Caratuva. Seguem na estreita picada aberta 11 anos antes pelos Armstrong, para catar mate. A picada já estava bem fechada, mas facilitava por seguir uma rota já estabelecida. Primeiro pernoite na "lagoa", que é até hoje um ponto de referência pera os que sobem o PP. Dia 9 de junho, com muito esforço, alcançam o cume do Cartauva e encontram um pequena superfície plana e baixa pra instalar as barracas e a parafernália do Maack. A expedição tinha dois propósitos: estudos e a conquista do PP. Mal alcançaram o topo e o tempo virou em tempestade. A chuva foi tão intensa que o local passou a ser chamado Jardim da Tempestade (onde atualmente está a antena de radio-transmissão). Com o tempo ruim, desceram os mateiros e carregadores, para voltaram em dois dias com provisões.

Ficaram ilhados no topo do Caratuva do dia 10 ao dia 12, quando conseguiram avançar até o Pouso da Sorte, com o tempo melhorando. No dia 13, com toda a equipe já reunida, avançaram pela crista, cruzaram a estreita faixa do pedestal e alcançaram a vertente do PP, própriamente dita. Às 13h45, chegaram ao Campo Inclinado (na altura do atual Abrigo de Pedra). Lá Maack remontou seus intrumentos e liberou os outros para prosseguirem, acompanhando Stamm e Mysing. Benedito tentou seguí-los, mas não aguentou e recuou. Josias estava extenuado pelo esforço do transporte da pesada carga, permanecendo na ajuda dos trabalhos científicos. Finalmente, gritos de júbilo e o espolcar de 2 rojões anunciaram a vitória sobre o ponto mais alto do Paraná (1877m). Os 2 consagrados escaladores totalizaram 3 horas entre sair e retornar ao Campo Inclinado, permanecendo apenas 20 minutos no cume, para as necessárias fotografias.

O RETORNO
No dia da conquista, retornaram ao Pouso da Sorte. Nos dias 14 e 15 permaneceram na casa dos Armstrong. Dia 16, pegaram carona numa tropa de animais até Cotia. Dia 17 alcançram Cacatú. Dia 18, via fluvio-marítma, aportaram em Antonina e 19 de julho, chegaram em Curitiba.

Vita/2000.

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