Trilha
do Telégrafo
Por
Tuco.
Enquanto
muitos amargavam a garoa em casa, nós estávamos
caminhando de Guaraqueçaba - PR até Itapirangui
- São Paulo, pela Trilha do Telégrafo. Também
amargamos uma garoa, mas conhecemos uma região bastante
interessante.
Saímos
de Curitiba em direção a Guaraqueçaba,
pela viação Graciosa, sábado às
07:00hs. Descemos do ônibus logo depois da entrada
do Salto Morato, no rio Guaraqueçaba. Começamos
a caminhar o primeiro trecho, até a vila de Batuva,
num total de 17,5KM. Dormimos numa escola pública
da vila e às 08:30hs do domingo estávamos
começando o 2º trecho da travessia, a Trilha
do Telégrafo. A trilha tem um pouco mais de 15KM,
e termina na estrada que liga Ariri a Itapirangui, no estado
de São Paulo. Com o pessoal de Batuva, descobrimos
que tem um ônibus que passa por esta estrada, só
que com pouca freqüência: " - passa toda
terça-feira, mas as vêis faia." . Como
nós chegaríamos na estrada no domingo, não
haveria condução certa disponível.
O jeito era torcer por carona, já que teríamos
até Itapirangui mais 34KM.
A
Trilha do Telégrafo é um mar de lama incomparável.
A Itupava parece asfaltada perto daquele lugar. Uma boa
dica para quem quiser um dia passar por lá é,
enfie o pé na lama logo na saída, porque cedo
ou tarde você vai atolar até o joelho. Durante
o percurso, é possível observar um estilo
de vida que nós nem lembramos que ainda existe no
Brasil. Casinhas enfiadas no meio do mato, onde só
se chega caminhando por horas, longe de tudo e de todos,
vivendo basicamente de subsistência e da venda de
bananas, principal cultura da região (em Batuva tem
uma fábrica de balas e doces de banana). Encontramos
também uns jipeiros encalhados, que já estavam
há dois dias na trilha e previam ficar ainda mais
dois dias, para percorrer aquilo que, a pé, se faz
em quatro horas ou em sete horas, se você estiver
carregando uma cargueira e andando com calma e sem apressar
o passo, segundo os moradores do local.
No
fim da tarde de domingo, completamos os 15Km da Trilha do
Telégrafo e chegamos a estrada Ariri / Itapirangui.
Tomamos um banho num rio a beira da estrada e começamos
a caminhar, torcendo para podermos pegar uma carona. Andamos
cerca de 12Km, três carros passaram e nenhum quis
parar para carregar cinco mochileiros sujos e cansados.
A noite vinha chegando e ainda tínhamos 12Km pela
frente para chegar até uma escola pública
onde planejávamos dormir, caso não encontrássemos
carona. Estávamos bem cansados e desestimulados,
já que andávamos em uma estrada de terra bastante
monótona sem nada de interessante e ainda tomando
chuva. Fizemos uma parada para descansar um pouco e sermos
picados por centenas de borrachudos e quando voltamos a
caminhar ouvimos um som que mais parecia - segundo Gilberto
Gil - um prelúdio baiano, um frevo pernambucano,
um choro de Pixinguinha... o maravilhoso som de um caminhão
de caçamba aberta, com a caçamba vazia, indo
para onde queríamos ir. Alguns de nós esticamos
o dedão, outros juntaram a mão como que em
oração, com aquele olhar de cachorro pidão
e graças a Deus, o caminhão parou. Prosseguimos
no terceiro trecho da caminhada em cima de um caminhão,
cansados e com muito frio, já que a chuva ficou mais
forte.
O
caminhão nos levou até a cidade de Pariquera-açu,
30Km adiante de Itapirangui. Encontramos um "luxuoso"
hotel que dispunha da melhor de todas as regalias... chuveiro
quente. Era banheiro coletivo, mas a água era realmente
quente. Dormimos em cinco num quarto para três pessoas.
Ainda demos uma volta pela cidade à noite e no dia
seguinte pegamos um ônibus até Registro e de
lá pra Curitiba.
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