Animais
peçonhentos da floresta atlântica no sul do
Brasil.
por
Renato Bérnils.
TELEFONE
DO CIT - Centro de Informações Toxicológicas
no Paraná:
0800 41 0148.
-
Animais peçonhentos encontrados
na Floresta Atlântica no sul do Brasil
- Profilaxia e Primeiros Socorros
- Lendas e Mitos sobre cobras
ANIMAIS
PEÇONHENTOS ENCONTRADOS N
A FLORESTA ATLÂNTICA NO SUL DO BRASIL:
Animais
que provocam irritações na pele e nada mais:
· sanguessugas
· barbeiros, mosquitos, pulgas e piolhos
· besouros bombeadores e potós
· abelhas nativas
· carrapatos e micuins
· sapos e certas pererecas verdes
Animais
que injetam toxinas, mas sem muita gravidade:
(dor local, edema, inchaço, irritação
cutânea, prurido, hematoma, pequena necrose, febre,
cefaléia, vômitos, mal-estar)
·
aranhas tarântulas, armadeiras e caranguejeiras
· escorpiões
· lacraias
· formigas, abelhas, marimbondos e vespas (quando
solitários)
· cobras-verdes, muçuranas, caninanas, falsas-corais
e outras
Animais
que injetam toxinas com gravidade média a alta:
(muita dor local e geral, necrose local avançada,
queimaduras graves, comprometimento da visão, dificuldades
respiratórias, problemas cardíacos, problemas
renais, óbito)
· vespas e marimbondos (em enxame)
· taturanas, lagartas-de-fogo e bichos-cachorrinho
ou bichos-cabeludos
· abelhas-de-mel (em enxame)
· aranhas-marrons
· serpentes corais e víboras
Complicantes:
· alergias
· nervosismo
· esforço físico
· distância de tratamento adequado
· choque anafilático
· paliativos e drogas não recomendáveis
MEDIDAS
PROFILÁTICAS
·
Usar botas, de preferência de borracha e cano longo.
Eventualmente, perneiras.
· Cuidar com os lugares onde pisa e principalmente
onde põe a mão.
· Verificar roupas e calçados antes de vesti-los.
· Manter sempre as portas das casas rurais e das
barracas fechadas.
· Combater baratas e ratos, que atraem escorpiões
e serpentes como as víboras.
· Limpar freqüentemente os quintais e terrenos
próximos às casas.
· Não acumular telhas, tijolos e tábuas
próximos às casas e por muito tempo.
· Ao entrar na mata, aguardar alguns segundos até
a visão se acostumar ao escuro.
· Nunca manipular serpentes, aranhas e escorpiões,
mesmo quando mortos.
· Não caminhar sozinho em áreas de
alto risco de peçonhentos distantes de socorro.
· Conhecer o mínimo sobre os animais peçonhentos
da sua região.
PRIMEIROS SOCORROS
1.
Manter a calma. A pessoa acidentada deve ficar o máximo
possível em repouso;
2. Lavar o local da picada apenas com água e sabão;
3. Manter o membro ofendido elevado em relação
ao resto do corpo;
4. Não fazer garrote (torniquete) no membro ofendido;
5. Não colocar folhas, tabaco, pó de café,
fezes ou outras substâncias sobre o local da picada;
6. Não fazer cortes ou perfurações
no local da picada;
7. Não beber querosene, álcool, bebidas alcoólicas
ou outros líquidos que intoxiquem ainda mais o acidentado;
8. Procurar o mais rápido possível um hospital
ou posto de saúde que tenha o soro adequado;
9. Não é necessário levar ao hospital,
junto com o acidentado, a serpente que o agrediu.
Lendas,
mitos, confusões e perguntas comuns sobre cobras
do Brasil meridional.
As
serpentes são, de longe, os animais mais comuns nas
crendices populares. Geralmente associadas a idéias
negativas, como traição, perversidade e maledicência,
são, na sociedade de base judaico-cristã,
tratadas como seres que devem ser evitados. Por outro lado,
em boa parte do mundo oriental, em especial no meio hinduísta,
as serpentes são tidas como símbolos de características
positivas e são tratadas com respeito.
No
Brasil, como em todo o Ocidente, o único modo eficaz
de diminuir o preconceito existente contra serpentes, lagartos,
jacarés, sapos, morcegos, piranhas, tubarões,
aranhas, escorpiões, lesmas, corujas, urubus e outros
animais estigmatizados, é a Educação
Ambiental. Eliminar esse preconceito é praticamente
impossível, já que possui raízes culturais;
minimizá-lo, porém, é parte do dever
de todos os que se pretendem "ecologistas" ou
defensores da natureza.
Pessoas
ligadas a unidades de conservação, profissionais
que lidam com estudos de campo e professores do ensino fundamental
e médio, freqüentemente ouvem histórias
sobre a vida das serpentes e suas façanhas. Parte
desses relatos espontâneos nos parece imediatamente
descabida de sentido biológico, mas uma grande fatia
dessas narrativas deixa os menos informados em dúvida
quanto à sua veracidade, ainda mais quando o indivíduo
que os relata afirma ter vivido atentamente os fatos. As
serpentes têm uma vida secreta e misteriosa para a
maioria das pessoas; pelo fascínio que exercem, são
facilmente mistificadas e mitificadas. Para auxiliar no
discernimento dessas "histórias de matuto"
ou "do vovô", são criticados a seguir
alguns dos mitos que circulam no Brasil, em especial pelo
Paraná:
·
A cobra mais venenosa do Mundo é outro conceito extremamente
relativo, uma vez que ainda não se desenvolveu um
método eficiente de comparação entre
os venenos ofídicos a ponto de se indicar a merecedora
desse nefasto título. Isso se deve porque ninguém
realmente sério se preocupa com tal tolice. Contudo,
levando-se em conta a rapidez dos efeitos nocivos ao homem,
a alta letalidade e a freqüência de acidentes
fatais, devem levar a fama de mais venenosas as taipãs
australianas (gênero Oxyuranus, da mesma família
das nossas corais verdadeiras). Há que se lembrar,
contudo, da brasileira Bothrops insularis (da família
das víboras), um caso especial - uma espécie
existente apenas em uma ilha do litoral paulista (Ilha da
Queimada Grande) e que possui veneno muitas vezes mais potente
do que o veneno de uma jararaca normal.
·
A maior cobra do Mundo é um conceito dependente da
escala que se adote. Em comprimento, na média devemos
esse título aos exemplares da espécie indiana
Python reticulatus, que não raramente excede os dez
metros. Em peso e diâmetro, porém, a campeã
é a sucuri sul-americana Eunectes murinus, que de
tão grande se mantém dentro da água
a maior parte do tempo de sua vida.
·
Cobras não produzem ninhos, pelo menos não
no mesmo sentido que o fazem as aves, os mamíferos
e os jacarés. Em geral, a serpente progenitora deposita
seus ovos ou pare seus filhotes e, assim que refeita, sai
para cuidar da sua própria vida, abandonando-os.
Os filhotes paridos, por sua vez, após um breve descanso
adaptando-se à vida extra-uterina, também
deixam o local de nascimento e desde cedo se viram sozinhos.
Aparente "cuidado parental" (ou seja, a prole
sob a proteção da mãe por alguns dias)
foi observado em algumas cascavéis dos Estados Unidos
e talvez ocorra em outras cobras.
·
Cobras não mamam. Na verdade o leite não constitui
alimento para as serpentes pois elas não produzem
enzimas que o aproveitem. Também não possuem
músculos aptos a sugar (mamar), pois esta é
uma característica dos mamíferos, como o próprio
nome indica. A origem deste mito está entre os escravos
de origem africana e é reforçada pelo líqüido
branco e viscoso que sai do ventre de cobras prenhes quando
elas são mortas por esmagamento ou forte pancada.
Os escravos que trabalhavam em ordenha costumavam desviar
parte do leite obtido nos dias em que tinham a sorte de
encontrar uma cobra grande qualquer pela frente. A serpente
era morta e levada ao feitor como sendo a culpada pela pouca
quantidade de leite retirado da vaca. Na verdade essa era
a única forma de certos escravos poderem dar leite
a seus familiares.
·
Cobras não têm chifres. As que comem sapos,
rãs e pererecas, os engolem pela cabeça e
com o ventre voltado para cima. As patas traseiras do anfíbio,
como conseqüência, se distendem para cima e para
a frente, dando a impressão de "chifres".
·
Cobras não andam aos pares. É o velho temor
do matuto, de que "onde se matou uma, deve-se ter cuidado
que a sua companheira deve estar rondando por perto".
Cobras só se encontram na época da reprodução
e a sua cópula dura, no máximo, dois dias.
É só nessa ocasião que duas podem ser
vistas juntas.
·
Cobras não silvam ou assobiam. Há até
quem diga que elas "piam" e "cantam",
mas quem produz esses sons são alguns animais caçados
pelas serpentes, inclusive quando estão sendo ingeridos.
·
Cobras não soltam "bafos" que mancham a
pele ou que sejam venenosos, como se fala da jibóia.
Algumas expelem o ar de seu único pulmão quando
estão irritadas e isso de fato assusta os incautos.
Suas línguas, que na ponta são divididas em
duas partes (diz-se bífidas), também não
possuem qualquer capacidade de passar veneno.
·
A única espécie que cospe o veneno (projeta-o
para fora da boca por meio de uma abertura frontal em suas
presas e não por algum tipo de "saliva")
é a serpente africana Naja nigricollis. As cobras
do Brasil nem mesmo babam.
·
As cobras não possuem veneno fora do aparato venenoso
(glândula, ducto e presa), todo ele concentrado na
cabeça do animal. Alguns falam da presença
de um ferrão na cauda mas tal crendice se deve ao
aspecto incomum do pênis das serpentes, que de fato
localiza-se na cauda. Também não há
veneno nos "espinhos" que aparecem em cobras mortas
ou jogadas no fogo - são apenas costelas e vértebras,
em número sempre elevado, que podem aparecer.
·
Agressividade e venenosidade não têm relação
direta. Há cobras muito agressivas e não venenosas
(como as jibóias, caninanas, boipevas, verdes, cipós,
etc) e muito venenosas e não agressivas (como as
corais verdadeiras).
·
Cobras não perseguem as pessoas. Podem, quando muito,
se lançar na direção das pessoas dando
a impressão de que as perseguem. Ao apavorado é
a impressão de perseguição que fica.
·
Cobras não escolhem o último ou o quarto ou
o quinto homem de um grupo que caminha em fila em uma trilha,
para picá-lo. Isso se dá ao acaso, em função
só da irritação do animal.
·
Cobras não deixam seu veneno em folhas à beira
de rios, lagos, brejos e várzeas para entrar na água,
"sugando-o" depois, de volta. O que ocorre é
que, na água, as serpentes costumam ficar vulneráveis
e dificilmente atacam, pois falta-lhes o apoio (o solo).
E há espécies que comem ovos de anfíbios,
moluscos e aracnídeos, colocados justamente em folhas
à beira d'água, e que tem uma aparência
viscosa, diferente de ovos de outros animais (parecem doce
de sagu).
·
Lagartos nunca se transformam em cobras ou vice-versa. E
também é impossível, biologicamente
falando, que uma espécie de serpente se cruze com
outra gerando uma terceira espécie ! Alguns crêem
que do cruzamento de uma coral falsa com uma jararaca podemos
obter uma coral verdadeira. É um grande absurdo,
só possível em bruxaria ou ficção.
·
Não existem lagartos venenosos na América
do Sul. Os únicos conhecidos no Mundo são
os que ocorrem no sul dos Estados Unidos e norte e oeste
do México e da Guatemala (Heloderma suspectum e Heloderma
horridum, Família Helodermatidae). Em muitos lugares
do Brasil se ouve casos de lagartos que, ao envelhecer,
tiveram suas patas reduzidas até se tornarem serpentes.
No Pantanal se diz que o Teiidae Dracaena paraguayensis
é venenoso (recebe até o nome popular de lagarto-víbora).
Mas não são reais.
·
O animal conhecido como quebra-quebra ou cobra-de-vidro
é um lagarto sem patas e não uma verdadeira
serpente. Não possui veneno, portanto. O que se quebra
é a cauda do animal e as partes que se separam mantém-se,
por algum tempo, se mexendo independentemente, devido a
espasmos com origem no seu sistema nervoso. Depois de perdidas,
essas partes apodrecem com o tempo, não sendo possível
que se juntem formando um "novo" animal.
·
Cobras não têm poder para, abocanhando suas
próprias caudas, adotar uma forma circular (de roda)
e movimentar-se por "rodagem". Não há
músculos e cérebro suficientes para tal. Isso
é coisa de desenho animado!
·
Cobras não hipnotizam suas vítimas. Essa crença
advém principalmente de observações
mal interpretadas de pessoas que freqüentam nossas
matas. Serpentes que se alimentam de aves, ovos ou anfíbios,
muitas vezes se aproximam de suas potenciais vítimas
sem que estas abandonem seu posto; algumas aves até
mesmo se postam de bicos e asas abertas diante da serpente,
mas não fogem. Em relação às
aves, muitas vezes estamos apenas vendo pais que protegem
ninhegos ou ovos, e em relação aos anfíbios,
em geral esses simplórios seres não percebem
a aproximação do inimigo de movimentos lentos
e acabam virando refeição.
·
Tampouco existem serpentes que voam. Insetos como a jequitiranabóia
é que mantém viva essa lenda. Em certas regiões
do Brasil diz-se que ela é uma cobra muito venenosa
e voadora, tão peçonhenta que quando pousa
numa árvore, esta morre. São encontros fortuitos
com o inseto pousado em árvores secas que permitem
essa interpretação. A jequitiranabóia
é um inseto da Ordem Homoptera (a mesma das cigarras),
sugador de seiva vegetal e totalmente inofensivo aos animais
e vegetais.
·
Não existem serpentes suficientemente pequenas que
possam ser engolidas acidentalmente por pessoas, quando
estas bebem água de fontes, bicas ou quedas d'água.
O que existe é uma variedade imensa de vermes serpentiformes
parasitas ou não, que habitam essas águas
e as vísceras humanas. As menores serpentes ao nascer
já são grandes demais para que alguém
consiga engoli-las distraidamente.
·
Sucuris não engolem bois e nem mesmo terneiros. Nenhuma
sucuri (a maior serpente do Mundo em peso e uma das maiores
em comprimento) consegue atingir tamanho suficiente para
engolir animais assim tão grandes, pois as serpentes
não engolem "aos pedaços", mas sim
a vítima inteira. Mesmo um ser humano adulto já
é grande demais para 99% das sucuris e, embora uma
pessoa pudesse caber na barriga dessas cobras, ela geralmente
não passaria pela garganta. São desconhecidos
casos reais de pessoas engolidas por sucuris. Fotos divulgadas
na televisão, no jornal e na Internet, de um adolescente
dentro da barriga de uma serpente, sobre um caminhão,
são de um acidente com o pitão Pithon reticulatus,
da Índia, e não com uma sucuri sul-americana.
·
Não existem pessoas naturalmente resistentes aos
venenos das serpentes com peçonha fatal. Há
quem foi picado pelas perigosas e não morreu, e há
também os que foram picados pelas não perigosas
e, obviamente, não morreram (mas pensavam ter sido
picados por espécies venenosíssimas). Pessoas
"especiais", porém, não existem.
·
Remédios caseiros, benzedeiras, curandeiros e outros
xamãs semelhantes, em que se pese todo o valor cognoscitivo
das culturas populares, podem servir como paliativos, mas
nunca como curativos. Muitos procedimentos caseiros podem
complicar gravemente o quadro de um acidentado, levando-o
até mais rapidamente a morrer, em alguns casos. Só
o soro salva.
·
Vale assinalar que, no Brasil, apenas cerca de 0,4% das
pessoas ofendidas por serpentes peçonhentas vão
a óbito, ou seja, morrem apenas 4 pessoas em cada
1000 acidentadas com as temidas jararacas, jaracuçus,
urutus, cruzeiras, cascavéis e corais. Ou seja, os
cães (os melhores amigos do homem) e as abelhas (comuns
em livros infantis como um bichinho simpático) matam,
no nosso País, tanto ou mais do que as serpentes.
Nem por isso se sai pelas ruas matando cães e eliminando
ninhos de abelhas! Por outro lado, qual é a atitude
normal do brasileiro típico, ao encontrar uma cobra
no caminho, na roça ou atravessando a estrada?
·
Se você mata uma serpente que aparece no quintal da
sua casa, achando que, com isso, está defendendo
seu território, sua família e seus animais
de criação, não se esqueça de
que quando você vai à mata, você é
que está invadindo o "quintal" dos animais
selvagens e, portanto, não tem o direito de matá-los.
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