Montanha, meio ambiente, amizade e, principalmente, Jesus
atualizado em 27.05.2003
AS ALTURAS
DOS MONTES PERTENCEM
A DEUS.

Salmo 95:4
 

andar departamento de caminhada


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CONCEIÇÃO
A história de uma travessia
- por Edgard Jansen

PARTE I


A entrada do Túnel da Guaricana - note bem, a placa diz: Proibida a entrada de pessoas estranhas. Nós entramos todos.


Lá de dentro, sapos pela esquerda e pela direita, no teto os morcegos, no córrego os carangueijos.


Carangueijos? Sim, lá dentro, onde sempre é noite, numa água gelada e rasa... o que mais me intriga, como foi que eles chegaram lá? Bem, Deus não deve ter criado eles lá dentro, segundo meus estudos o túnel foi construído após a criação do mundo.. hmmm... mas como então? Se alguém puder dar alguma dica...


Opa, olha a galera ai.. da esquerda o Sílvio (esse é nerds), Daiana (super atleta), Samy (vão conhecer ela melhor na próxima foto), Soraia (ahhh.. aquele sanduiche.. maravilhoso!), Marcelo (patrocínio da Nutrimental... tinha tudo, Nutry, Nutrinho.. e também patrocinador da Hawaianas a legítima, muitop obrigado), Maíta (Maria Anita que não tem nada a ver com presença de Anita mas mesmo assim fantástica), Luciane (tae alguém que como eu fazia questão de comer o peixe.. mas que esse peixe me debilitou um pouco debilitou.. eu estou até hoje comendo torradas e gelatina, só!) e Edgard de vermeio (eu, segundo os outros um burguês agitador da revolução pró-manutenção do sistema da posição) e Dr. Giancarlo (Sr. Dr. Excelentíssimo Diretor da Caminhada da Travessia) por detrás da máquina.


Vejam o biguinho(um) da Samy... tsss.. tsss.. isso é coisa que se mostre em foto???? Ahhh não.. depois dessa eu vou embora...

 

A mão abana na janela fazendo sinal para que o motorista avance. Como que controlado pelo gesto do passageiro nosso ônibus segue e se alinha ao outro. A gritaria e troca de provocações segue mas lentamente a minha mente se desliga de toda aquela algazarra. O momento festivo para os jovens sentados lá fundo é regado a cerveja e queimado no cigarro. Aqui na frente estamos nós seis. Seis guerreiros recém saídos da selva do Vietnã, um mundo sem lei, sem demarcações, sem protagonistas.

A minha direita um casal vive sua lua de mel entre beijos e afagos. Todo aquele amor não cabe somente sobre duas poltronas e entre um abraço e outro tocam se por vezes os pés. Não os deles. O pé do rapaz encontra o meu, que repousa num hawaianas, e o espreme. Mas ele não percebe, a sua percepção está totalmente tomada pela deusa em seus braços. Os beijos e afagos me lembram de Versos Íntimos de Augusto dos Anjos.. "O beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!".

O congestionamento é muito grande e atrasa ainda mais a minha expectativa de chegada. Meus planos imaginavam um bom café em casa por volta das 21:00 horas, mas não, nesta hora sentia a leve marola embalando o trapiche de Antonina. A mochila me acomodava a cabeça e as pernas sentiam se felizes por estarem deitadas. O ômega azul força a ultrapassagem pela direita, mas a associação de nosso carrancudo motorista e outro caminhoneiro de iguais simpáticas feições é eficiente e consegue organizar uma fila de carros sem direito a ultrapassagens pelo acostamento.

Sinto na perna o primeiro bambu fogo que atravessara o meu caminho. Descemos na ponte do rio Tucum. Terra Boa é o nome do lugar. Seguimos a rua e cumprimentamos o João, o Manuel, a Dona Acácia e como não, o Bugre. Seus longos cabelos se trançam com sua barba, o golpe da enxada leva a força dos dezoito anos à terra que já o conhece há mais de 50. O Gian rege nossos próximos passos ao ritmo da história e mito que envolvem este homem. Quem não sente o gostinho dos 40 quilos de palmito que ele trazia em suas costas desde o Bairro Alto?

Somos bem atendidos na primeira porteira. Os cinco Rotweiler ocupam seus canis e assim caminhamos tranquilos. As margens da represa nos fazem companhia. Passamos aqui, passamos ali e, lentamente nos embrenhamos na mata. A estradinha vira uma trilha que vira uma picada. O calor e a umidade nos cozinham. Subidinha encardida mas logo sentimos os ventos que sopram no cume. O frescor daquela brisa me lembra uma velha poesia de montanha que conta "No cume ventos sopram, no cume flores crescem..". A entonação certa pode dar o sentido exato! Voltamos a montanha. O chiado da alta tensão inspira o Marcelo a divagar sobre os riscos daquelas linhas. Descargas elétricas, máquinas, empregos, empregados, diretores.. nosso "eco-business" acaba quando debaixo da árvore encontramos os mais apressadinhos do grupo.

Sanduíche a La Daiana e Nutrinho de nosso patrocinador marcial (Marcelo) são a pedida da vez. Quinze minutos de discórdias políticas. A posição vira oposição e quem não vota no Lula é burguês. Foi a minha vêz. Ao invés do "um por todos e todos por um" foi o "um contra todos e todos contra um". Não adiantou amenizar, fiquei marcado.. de lá pra agora só me chamam de burguesinho. O Ferraria nos serve das águas de suas nascentes. O lanche ao riacho renova as nossas forças e nos faz encarar com coragem as mais vorazes urtigas.

Os trovões nos trazem devolta dos palanques eleitorais para a Mata Atlântica. As arapongas são as únicas a ainda desafiar juntas conosco a ameaça do temporal. "Não há erro não" - garante o Sílvio - "a chuva vai dar a volta". Vento vem e vento vai mas nós só vamos. Última encruzilhada. A direita ou a esquerda? Rumo a Guaricana. Trilhos que passam por cima de fendas, mochilas que passam por debaixo de bambus. A chuva nos encontra e nos abraça. O calor do dia é lavado por cada gota que escorre esse rosto suado. Achamos a ponte, histórica, enferrujada.

Um homem nunca atravessa duas vezes o mesmo rio, muda o homem e muda o rio. Eu sabia disso ao pisar com cuidado sobre os restos da estrutura do que já teria sido uma bela obra da engenharia. Nem dez minutos mais e estaríamos diante do nosso objetivo.

Caminháramos aquele dia todo para matarmos a nossa curiosidade. Foram mais alguns passos. Amorinhas silvestres decoravam o belo jardim que se levantava a nossa volta. Quem não se alegrou ao provar uma delas? Avistamos o que talvez há trinta anos fosse uma britadeira, alguns degraus de concreto e lá estava ela, a porta, a entrada do túnel.


Um homem nunca atravessa duas vezes o mesmo rio, muda o homem e muda o rio. Eu sabia disso ao pisar com cuidado sobre os restos da estrutura do que já teria sido uma bela obra da engenharia. Nem dez minutos mais e estaríamos diante do nosso objetivo.

Caminháramos aquele dia todo para matarmos a nossa curiosidade. Foram mais alguns passos. Amorinhas silvestres decoravam o belo jardim que se levantava a nossa volta. Quem não se alegrou ao provar uma delas? Avistamos o que talvez há trinta anos fosse uma britadeira, alguns degraus de concreto e lá estava ela, a porta, a entrada do túnel.

PARTE II
Foi quando o Cover se aproximou e puxou pela maçaneta... Nelson Rodriguez não escreve nada sobre os sapos, mas se escrevesse não deixaria de comentar o seu cinismo. Quem mais deixa assim semi-abertos os seus olhos negros diante da histeria de nossas companheiras? É um cinismo só. E estava lá, o sapo guardião do túnel.
A placa proibia a entrada de pessoas estranhas. Fomos entrando um a um sem ninguém nos policiar. Que estranho!
Entrávamos na escuridão e a escuridão entrava em nós. Os 100 metros até o único pedaço de chão de acampamento arrancaram de nossas mochilas as lanternas. Mochila ao chão. Seria ali. Mas o que há na outra extremidade? Além da luz que vinha da entrada, eu não via a luz no fim do túnel. Devia ser algo em torno de 1300 metros. Calculei rapidamente a significativa curvatura que o mesmo teria para que não se enxergasse a outra saída. No meio do escuro até mesmo algumas palavras se perdem. Pescando aqui e pescando ali juntei a informação de que havia um bifurcação no final e então achei explicado o negrume que cerrava a nossa visão. Muitas pedras e águas foram ficando para trás. Nos equilibrávamos para pisar sobre pequenas elevações em partes que estavam quase que totalmente inundadas. As formações rochosas laterais davam coceira na ponta dos dedos, ahhh se aquele relevo não daria uma boa escalada... mas que escalada o que, ponha a mão naquela areia para saber debaixo de que tipo de montanha estamos.. bem, deixe pra lá esses maus pensamentos... imaginei se começam a cair as beiras do túnel... chegamos ao chuveiro.. eu mesmo não usei.. mas pelo que sei foi de bom uso e pelo bom cheiro da facção feminina na hora de nossa janta suponho que o banho tenha sido agradável... 730, 912.. os metros pintados ilustravam a parede.. chegamos a uma imensa banheira.. chegar ao fim do túnel só desistindo de não molhar as botas por dentro. A água dava quase no joelho. Pensei em tirar e ir descalço. Pensei nas fezes dos morcegos. Pensei no frio que seria continuar descalço. Pensei no frio que seria andar com a bota molhada. Ó raios, que descisão! A mocinha virgem fugiu por anos dos namorados para agora se entregar tão voluntária ao estuprador. Que violência. Comecei a mergulhar as pernas naquela água e segui de longe aos outros que pareceram não sofrer a tormenta dessa descisão. E lá estava, o fim do túnel. Sem bifurcação, sem curvatura. Eu ainda via a luz da porta pela qual entramos mas não via a luz do fim do túnel... mas o fim estava lá. Uma porta nos separava do "além porta". Quem sabe se atrás da mesma não se encotrariam as mais aviltantes criaturas, um reino de trevas e medos... o escuro me inspirava mal... porque não lembrar das belas flores lá de fora? Fotografadas as estalactites e estalagnites (que me corrijam os entendidos) fez se hora de voltar.
Voltamos ao local de acampamento. Homens vão a caça e mulheres a cozinha, como desde as mais distantes marcas de nossa história. Não foi bem assim. Saímos para buscar água enquanto as moças sabe Deus o que fizeram, cozinhar é que não foi (calma-lá, sou burguês mas nem por isso machista, eu em momento algum sequer sonhei que isso poderia acontecer, o comentário foi só brincadeira). O clarão do dia nos fez descobrir um novo mundo.. o mundo fora da caverna, como no mito. O rio convidava para uma banho de índio mas o final da tarde avisava que o melhor era se preparar para a noite.
Caverna a dentro começamos a montar nossas barracas e procurar a melhor pedra para a reunião da democracia. Agora sim os bules começaram a ferver a água e nas mais apressadas caçarolas já se encontrava alguma sopa quente. A minha pedida foi o inegável tradicionalíssimo miojo nosso de cada montanha. Como não? O atum fez do prato o melhor dos manjares. Entre as barracas se fez a roda da oferta e da procura onde compartilhávamos de nossas experiências culinárias, umas mais e outras menos bem-sucedidas.
Os faróis foram ficando baixos. Um ombro procurava desesperadamente outro ombro. Uma cabeça se escorava na sua irmã. Para não desfalecermos lá mesmo, como corpos deteriorados em navio negreiro, nos escondemos em nossas barracas.
A solidão da minha barraca (não por falta de oferecer, eu bem que quis compartilhar) e a falta do isolante térmico me deram a oportunidade de ser um observador da noite, já que meu corpo se recusava a dormir obedientemente no berço frio.
Começara o desmatamento. Motosserras pra cá, motosserras pra lá. Com o cair da primeira árvore certamente também viria abaixo o túnel. Não veio nem um nem outro. Pela manhã cada qual havia seu argumento para provar que não roncara. Orabolas.. acho que deve ter sido a minha cabeça!
A barraca se abriu lentamente sob meu gesto preguiçoso e lá estava eu novamente olhando a noite. A escuridão do túnel nos roubava a real certeza da vida. Bolachas, café, tódinhos mil.. o escuro escondia a feiura de nossas caras amassadas. Panelas sujas da noite anterior se debruçavam sobre a margem do pequeno córrego como que implorando para serem lavadas. Vi um pequeno garfo saindo em companhia de alguns carangueijos (desculpa Cover, não pude deixar de fazer folclore de teu tão estimado garfinho, desculpa mesmo, não é por mal). Ainda tirei umas fotos dos suspeitos mas de nada ainda adiantou, a polícia florestal segue fazendo as investigações.
Antes de desarmar o acampamento ainda resolvemos registrá-lo em algumas fotos. A Conceição, no entanto, que me encucava. Onde será que ela estaria? Já andáramos a metade da trilha e nada da senhorita Conceição. Se eu tivesse a tal de trilha estaria nela, cuidando.
Montamos o tripé e assim o Cover e eu começamos o trabalho de studio. Morcegos voavam por vezes bem próximos a nossa volta, provelmente até excitados pelo sinal do controle remoto de minha máquina (alguém para contestar? acho que chega a ser verossímil), fato que não me incomodava, até o momento em que senti o morcego no meu braço..

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