CONCEIÇÃO
A história de uma travessia
- por Edgard Jansen
PARTE
I
A entrada do Túnel da Guaricana - note
bem, a placa diz: Proibida a entrada de pessoas
estranhas. Nós entramos todos.
Lá de dentro, sapos pela esquerda e pela
direita, no teto os morcegos, no córrego
os carangueijos.
Carangueijos? Sim, lá dentro, onde sempre
é noite, numa água gelada e rasa...
o que mais me intriga, como foi que eles chegaram
lá? Bem, Deus não deve ter criado
eles lá dentro, segundo meus estudos
o túnel foi construído após
a criação do mundo.. hmmm... mas
como então? Se alguém puder dar
alguma dica...
Opa, olha a galera ai.. da esquerda o Sílvio
(esse é nerds), Daiana (super atleta),
Samy (vão conhecer ela melhor na próxima
foto), Soraia (ahhh.. aquele sanduiche.. maravilhoso!),
Marcelo (patrocínio da Nutrimental...
tinha tudo, Nutry, Nutrinho.. e também
patrocinador da Hawaianas a legítima,
muitop obrigado), Maíta (Maria Anita
que não tem nada a ver com presença
de Anita mas mesmo assim fantástica),
Luciane (tae alguém que como eu fazia
questão de comer o peixe.. mas que esse
peixe me debilitou um pouco debilitou.. eu estou
até hoje comendo torradas e gelatina,
só!) e Edgard de vermeio (eu, segundo
os outros um burguês agitador da revolução
pró-manutenção do sistema
da posição) e Dr. Giancarlo (Sr.
Dr. Excelentíssimo Diretor da Caminhada
da Travessia) por detrás da máquina.
Vejam o biguinho(um) da Samy... tsss.. tsss..
isso é coisa que se mostre em foto????
Ahhh não.. depois dessa eu vou embora...
A
mão abana na janela fazendo sinal para que
o motorista avance. Como que controlado pelo gesto
do passageiro nosso ônibus segue e se alinha
ao outro. A gritaria e troca de provocações
segue mas lentamente a minha mente se desliga de toda
aquela algazarra. O momento festivo para os jovens
sentados lá fundo é regado a cerveja
e queimado no cigarro. Aqui na frente estamos nós
seis. Seis guerreiros recém saídos da
selva do Vietnã, um mundo sem lei, sem demarcações,
sem protagonistas.
A
minha direita um casal vive sua lua de mel entre beijos
e afagos. Todo aquele amor não cabe somente
sobre duas poltronas e entre um abraço e outro
tocam se por vezes os pés. Não os deles.
O pé do rapaz encontra o meu, que repousa num
hawaianas, e o espreme. Mas ele não percebe,
a sua percepção está totalmente
tomada pela deusa em seus braços. Os beijos
e afagos me lembram de Versos Íntimos de Augusto
dos Anjos.. "O beijo, amigo, é a véspera
do escarro, a mão que afaga é a mesma
que apedreja. Se a alguém causa inda pena a
tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga,
escarra nessa boca que te beija!".
O
congestionamento é muito grande e atrasa ainda
mais a minha expectativa de chegada. Meus planos imaginavam
um bom café em casa por volta das 21:00 horas,
mas não, nesta hora sentia a leve marola embalando
o trapiche de Antonina. A mochila me acomodava a cabeça
e as pernas sentiam se felizes por estarem deitadas.
O ômega azul força a ultrapassagem pela
direita, mas a associação de nosso carrancudo
motorista e outro caminhoneiro de iguais simpáticas
feições é eficiente e consegue
organizar uma fila de carros sem direito a ultrapassagens
pelo acostamento.
Sinto
na perna o primeiro bambu fogo que atravessara o meu
caminho. Descemos na ponte do rio Tucum. Terra Boa
é o nome do lugar. Seguimos a rua e cumprimentamos
o João, o Manuel, a Dona Acácia e como
não, o Bugre. Seus longos cabelos se trançam
com sua barba, o golpe da enxada leva a força
dos dezoito anos à terra que já o conhece
há mais de 50. O Gian rege nossos próximos
passos ao ritmo da história e mito que envolvem
este homem. Quem não sente o gostinho dos 40
quilos de palmito que ele trazia em suas costas desde
o Bairro Alto?
Somos
bem atendidos na primeira porteira. Os cinco Rotweiler
ocupam seus canis e assim caminhamos tranquilos. As
margens da represa nos fazem companhia. Passamos aqui,
passamos ali e, lentamente nos embrenhamos na mata.
A estradinha vira uma trilha que vira uma picada.
O calor e a umidade nos cozinham. Subidinha encardida
mas logo sentimos os ventos que sopram no cume. O
frescor daquela brisa me lembra uma velha poesia de
montanha que conta "No cume ventos sopram, no
cume flores crescem..". A entonação
certa pode dar o sentido exato! Voltamos a montanha.
O chiado da alta tensão inspira o Marcelo a
divagar sobre os riscos daquelas linhas. Descargas
elétricas, máquinas, empregos, empregados,
diretores.. nosso "eco-business" acaba quando
debaixo da árvore encontramos os mais apressadinhos
do grupo.
Sanduíche
a La Daiana e Nutrinho de nosso patrocinador marcial
(Marcelo) são a pedida da vez. Quinze minutos
de discórdias políticas. A posição
vira oposição e quem não vota
no Lula é burguês. Foi a minha vêz.
Ao invés do "um por todos e todos por
um" foi o "um contra todos e todos contra
um". Não adiantou amenizar, fiquei marcado..
de lá pra agora só me chamam de burguesinho.
O Ferraria nos serve das águas de suas nascentes.
O lanche ao riacho renova as nossas forças
e nos faz encarar com coragem as mais vorazes urtigas.
Os
trovões nos trazem devolta dos palanques eleitorais
para a Mata Atlântica. As arapongas são
as únicas a ainda desafiar juntas conosco a
ameaça do temporal. "Não há
erro não" - garante o Sílvio -
"a chuva vai dar a volta". Vento vem e vento
vai mas nós só vamos. Última
encruzilhada. A direita ou a esquerda? Rumo a Guaricana.
Trilhos que passam por cima de fendas, mochilas que
passam por debaixo de bambus. A chuva nos encontra
e nos abraça. O calor do dia é lavado
por cada gota que escorre esse rosto suado. Achamos
a ponte, histórica, enferrujada.
Um homem nunca atravessa duas vezes o mesmo rio, muda o homem
e muda o rio. Eu sabia disso ao pisar com cuidado sobre os
restos da estrutura do que já teria sido uma bela obra
da engenharia. Nem dez minutos mais e estaríamos diante
do nosso objetivo.
Caminháramos
aquele dia todo para matarmos a nossa curiosidade. Foram
mais alguns passos. Amorinhas silvestres decoravam o belo
jardim que se levantava a nossa volta. Quem não se
alegrou ao provar uma delas? Avistamos o que talvez há
trinta anos fosse uma britadeira, alguns degraus de concreto
e lá estava ela, a porta, a entrada do túnel.
Um homem nunca atravessa duas vezes o mesmo rio, muda o
homem e muda o rio. Eu sabia disso ao pisar com cuidado
sobre os restos da estrutura do que já teria sido
uma bela obra da engenharia. Nem dez minutos mais e estaríamos
diante do nosso objetivo.
Caminháramos
aquele dia todo para matarmos a nossa curiosidade. Foram
mais alguns passos. Amorinhas silvestres decoravam o belo
jardim que se levantava a nossa volta. Quem não se
alegrou ao provar uma delas? Avistamos o que talvez há
trinta anos fosse uma britadeira, alguns degraus de concreto
e lá estava ela, a porta, a entrada do túnel.
PARTE
II Foi
quando o Cover se aproximou e puxou pela maçaneta...
Nelson Rodriguez não escreve nada sobre os sapos,
mas se escrevesse não deixaria de comentar o seu
cinismo. Quem mais deixa assim semi-abertos os seus olhos
negros diante da histeria de nossas companheiras? É
um cinismo só. E estava lá, o sapo guardião
do túnel.
A placa proibia a entrada de pessoas estranhas. Fomos entrando
um a um sem ninguém nos policiar. Que estranho!
Entrávamos na escuridão e a escuridão
entrava em nós. Os 100 metros até o único
pedaço de chão de acampamento arrancaram de
nossas mochilas as lanternas. Mochila ao chão. Seria
ali. Mas o que há na outra extremidade? Além
da luz que vinha da entrada, eu não via a luz no
fim do túnel. Devia ser algo em torno de 1300 metros.
Calculei rapidamente a significativa curvatura que o mesmo
teria para que não se enxergasse a outra saída.
No meio do escuro até mesmo algumas palavras se perdem.
Pescando aqui e pescando ali juntei a informação
de que havia um bifurcação no final e então
achei explicado o negrume que cerrava a nossa visão.
Muitas pedras e águas foram ficando para trás.
Nos equilibrávamos para pisar sobre pequenas elevações
em partes que estavam quase que totalmente inundadas. As
formações rochosas laterais davam coceira
na ponta dos dedos, ahhh se aquele relevo não daria
uma boa escalada... mas que escalada o que, ponha a mão
naquela areia para saber debaixo de que tipo de montanha
estamos.. bem, deixe pra lá esses maus pensamentos...
imaginei se começam a cair as beiras do túnel...
chegamos ao chuveiro.. eu mesmo não usei.. mas pelo
que sei foi de bom uso e pelo bom cheiro da facção
feminina na hora de nossa janta suponho que o banho tenha
sido agradável... 730, 912.. os metros pintados ilustravam
a parede.. chegamos a uma imensa banheira.. chegar ao fim
do túnel só desistindo de não molhar
as botas por dentro. A água dava quase no joelho.
Pensei em tirar e ir descalço. Pensei nas fezes dos
morcegos. Pensei no frio que seria continuar descalço.
Pensei no frio que seria andar com a bota molhada. Ó
raios, que descisão! A mocinha virgem fugiu por anos
dos namorados para agora se entregar tão voluntária
ao estuprador. Que violência. Comecei a mergulhar
as pernas naquela água e segui de longe aos outros
que pareceram não sofrer a tormenta dessa descisão.
E lá estava, o fim do túnel. Sem bifurcação,
sem curvatura. Eu ainda via a luz da porta pela qual entramos
mas não via a luz do fim do túnel... mas o
fim estava lá. Uma porta nos separava do "além
porta". Quem sabe se atrás da mesma não
se encotrariam as mais aviltantes criaturas, um reino de
trevas e medos... o escuro me inspirava mal... porque não
lembrar das belas flores lá de fora? Fotografadas
as estalactites e estalagnites (que me corrijam os entendidos)
fez se hora de voltar.
Voltamos ao local de acampamento. Homens vão a caça
e mulheres a cozinha, como desde as mais distantes marcas
de nossa história. Não foi bem assim. Saímos
para buscar água enquanto as moças sabe Deus
o que fizeram, cozinhar é que não foi (calma-lá,
sou burguês mas nem por isso machista, eu em momento
algum sequer sonhei que isso poderia acontecer, o comentário
foi só brincadeira). O clarão do dia nos fez
descobrir um novo mundo.. o mundo fora da caverna, como
no mito. O rio convidava para uma banho de índio
mas o final da tarde avisava que o melhor era se preparar
para a noite.
Caverna a dentro começamos a montar nossas barracas
e procurar a melhor pedra para a reunião da democracia.
Agora sim os bules começaram a ferver a água
e nas mais apressadas caçarolas já se encontrava
alguma sopa quente. A minha pedida foi o inegável
tradicionalíssimo miojo nosso de cada montanha. Como
não? O atum fez do prato o melhor dos manjares. Entre
as barracas se fez a roda da oferta e da procura onde compartilhávamos
de nossas experiências culinárias, umas mais
e outras menos bem-sucedidas.
Os faróis foram ficando baixos. Um ombro procurava
desesperadamente outro ombro. Uma cabeça se escorava
na sua irmã. Para não desfalecermos lá
mesmo, como corpos deteriorados em navio negreiro, nos escondemos
em nossas barracas.
A solidão da minha barraca (não por falta
de oferecer, eu bem que quis compartilhar) e a falta do
isolante térmico me deram a oportunidade de ser um
observador da noite, já que meu corpo se recusava
a dormir obedientemente no berço frio.
Começara o desmatamento. Motosserras pra cá,
motosserras pra lá. Com o cair da primeira árvore
certamente também viria abaixo o túnel. Não
veio nem um nem outro. Pela manhã cada qual havia
seu argumento para provar que não roncara. Orabolas..
acho que deve ter sido a minha cabeça!
A barraca se abriu lentamente sob meu gesto preguiçoso
e lá estava eu novamente olhando a noite. A escuridão
do túnel nos roubava a real certeza da vida. Bolachas,
café, tódinhos mil.. o escuro escondia a feiura
de nossas caras amassadas. Panelas sujas da noite anterior
se debruçavam sobre a margem do pequeno córrego
como que implorando para serem lavadas. Vi um pequeno garfo
saindo em companhia de alguns carangueijos (desculpa Cover,
não pude deixar de fazer folclore de teu tão
estimado garfinho, desculpa mesmo, não é por
mal). Ainda tirei umas fotos dos suspeitos mas de nada ainda
adiantou, a polícia florestal segue fazendo as investigações.
Antes de desarmar o acampamento ainda resolvemos registrá-lo
em algumas fotos. A Conceição, no entanto,
que me encucava. Onde será que ela estaria? Já
andáramos a metade da trilha e nada da senhorita
Conceição. Se eu tivesse a tal de trilha estaria
nela, cuidando.
Montamos o tripé e assim o Cover e eu começamos
o trabalho de studio. Morcegos voavam por vezes bem próximos
a nossa volta, provelmente até excitados pelo sinal
do controle remoto de minha máquina (alguém
para contestar? acho que chega a ser verossímil),
fato que não me incomodava, até o momento
em que senti o morcego no meu braço..