A
narrativa que se segue agora é um relato fiel e franco
dos acontecimentos dos dias 17 e 18 de agosto de 2002 em uma
atividade oficial da programação da AMC - Associação
dos Montanhistas de Cristo Por
George "Nas Nuvens" Volpão - www.nasnuvensmontanhismo.hpg.ig.com.br
Equipe
Ferraria:
Hilton
- Vinícius - George - Thaís - Kátia
- Mineiro
Ferraria visto do PP.
Foto: George Nas Nuvens
Kátia, George, Thaís, Hilton, Vinícius
e Mineiro no Taipabuçu, rumo ao Ferraria.
Foto:
Patrik Gorsz.
Pico Paraná visto do Ferraria.
Foto:
Thaís Nas Nuvens.
Casal Nas Nuvens no Getúlio (Piolho), com o
Taipa e o Ferraria ao fundo.
Foto:
Mineiro.
Curitiba,
17 de agosto de 2002, quatro horas da manhã.
O sono insiste em nos manter de olhos fechados mas
algo nos espera. Aquele desejo latente de alcançar
a montanha cobiçada nesta minha curta vida
de montanhista está prestes a vir à
tona. Esse desejo atende pelo nome de Ferraria.
O
Ferraria localiza-se ao norte da Serra do Ibitiraquire,
o "Himalaia" paranaense, como diz o Vitamina,
expoente do montanhismo do estado. Sua altitude é
de 1745 metros sendo o sexto mais alto do estado.
É famoso pelo seu difícil acesso, ainda
mais agora que a trilha que partia do planalto (Fazenda
da Brasilsat) está fechada.
O Projeto Cinco Cumes, elaborado pela AMC, surgiu
com a idéia de enviar cinco grupos para cinco
cumes diferentes em uma atividade de fim de semana,
todos eles equipados com rádio para comunicação
entre si. Pico Paraná, Caratuva, Tucum, Ciririca
e Ferraria, foram os escolhidos, pois do alto do cume
de cada um deles poderiam os outros quatro serem observados
à noite para a tradicional comunicação
via lanterna.
Como no mês anterior a AMC havia realizado uma
caminhada ao PP, desta vez ninguém se dispôs
a ir ao PP. Tudo bem. O projeto passou para 4 cumes!
Definidas
as equipes, acertados os detalhes e conferidos os
equipos, tudo ok. Condições meteorológicas
perfeitas e um alto astral de todos nos levaram a
acordar tão cedo num sábado e partir
via Br-116 rumo ao Ferraria.
A
intenção era iniciar a caminhada Bruno, hoje
Dilson, passando o Getúlio, entrando na Trilha do
Caratuva, e no rio quebrar à esquerda indo direto
ao Taipabuçu, onde depois do seu terceiro cume a
trilha desceria até um vale, subindo em seguida para
finalmente alcançar o alto do Ferraria. Parece simples
mas não é não.
No início a dificuldade do Hilton e do Vinícius
em encontrar este que vos escreve e a Sra Nas Nuvens, vulgo
"Thaís", na residência da mesma.
Quatro da manhã em ruas desconhecidas da zona sul
de Curitiba foi complicado. A aventura só começava...
Chegamos nós quatro, Hilton, Vinícius, Sr
e Sra Nas Nuvens pouco depois das seis da manhã ao
Sítio Base do simpaticíssimo Dilson, com seu
rosto amassado pelo sono. Encontramos então Kátia
e Mineiro, acertando os detalhes de última hora.
Não perdemos tempo e logo fomos galgando a Pedra
do Grito com o lusco-fusco da aurora, prenunciando um céu
azul que só o inverno paranaense é capaz de
produzir.
A grande preocupação era com a trilha a seguir
pois conhecíamos apenas parte dela, apesar das garantias
dadas por nossos companheiros de montanha que não
haveria dificuldades de orientação. O que
nos preocupava era também a questão da água,
porém haviam relatos que era possível encontrar
o precioso líquido na travessia do Taipabuçu
ao Ferraria.
Chegando
no Morro do Getúlio o sol já brilhava forte
e logo tomamos a trilha do Caratuva. Logo no início
tem um riozinho mas como estávamos no inverno ele
estava seco. Kátia e Mineiro rumaram até a
Bica do PP, trazendo 1 litro de água para cada um
visto que até o próximo ponto de abastecimento
levaríamos umas três horas. Neste ponto nós
encontramos mais dois companheiros da AMC que iriam bivacar
no Taipabuçu, o que fez nosso projeto voltar a ser
5 cumes, apesar que eles não estavam com rádio
comunicadores. Seguimos direto até o Taipabuçu,
sob forte calor para esta época. Descansamos um pouco
no cume e fomos procurar a continuação da
trilha rumo ao Ferraria. Assim que achamos o grupo se reuniu
e partiu descendo o Taipa. Em certos momentos a descida
acompanhava o leito seco de um riacho e nada de água.
Apenas poças sujas sobre cavidades nas rochas. Chegamos
ao vale e nenhum riozinho!!
A difícil decisão de seguir em frente até
o Ferraria foi tomada e tentaríamos buscar água
do outro lado, descendo até a Trilha da Conceição.
A preocupação era se iríamos chegar
ainda de dia no cume. Ainda era cedo, umas duas da tarde,
mas o cansaço batia forte, principalmente em mim,
no Vinícius e no Hilton. Kátia, bem à
frente, Mineiro e a Thaís que me arrastava morro
acima estavam bem, apesar da sede.
Chegamos ao cume por volta das quatro e o Mineiro partiu
alucinado rumo ao vale onde passa a Conceição
onde havia água o ano inteiro. Assim que larguei
a mochila fui atrás, julgando-me bem fisicamente.
Mas logo o cansaço, a fome e principalmente a sede
começaram a fazer seus estragos e minar minha resistência.
Mineiro teve que descer só, com a intenção
de voltar com 12 litros de água nas costas. Eu mal
conseguia engatinhar de volta para o cume, muito extenuado
e quando cheguei de volta ao cume, apaguei. Fiquei fora
do ar uns 10 minutos. Logo recuperei a normalidade e vi
a besteira que tinha feito ao tentar seguir até a
água. Isso apenas tinha me desgastado mais. Agora
já era. A noite se aproximava, o Mineiro estava sozinho
procurando água e todos estavam bem cansados. A Kátia
em um gesto de muita prestatividade, desceu ao encontro
do Mineiro para ajudar a carregar a mochila pesada com água.
Foi uma alegria incrível quando por volta das sete
da noite observamos a luz das duas lanternas subindo lentamente
a encosta. Hilton e Vinícius, já um descansados
desceram para ajudar também.
Durante todo o tempo estávamos em contato com o pessoal
do Caratuva, do Ciririca e do Tucum, sempre nos dando força.
Enfim chegou a água. Um litro e meio por pessoa.
Economizar era fundamental. Pelo menos conseguiríamos
matar a nossa sede. Havia feito um forte calor durante o
longo dia de caminhada e estávamos desidratados.
A água era suficiente para cozinharmos e para nos
reidratar um pouco. O nosso astral melhorou consideravelmente,
com o bom-humor voltando a reinar como era de praxe em nossas
caminhadas anteriores
Descansados, bem alimentados e reidratados, o sono bateu
pesado. Literalmente capotamos, mas não sem antes
compartilhar nossas desventuras com o pessoal que estava
no Ciririca, no Tucum e no Caratuva. Os grupos que estavam
nestas montanhas estavam bem e nos passaram muita tranquilidade,
pois a volta no dia seguinte já nos preocupava.
Os locais para armar as barracas no Ferraria não
os melhores que já havíamos visto, mas não
eram tão desconfortáveis como haviam propalado
por aí. Havia uma proteção contra o
vento, que estava forte, pois o pessoal no Tucum nos relatou
que lá era bem forte e atrapalhava o bom sono. É
um cume apertado. Na verdade são dois, um bem próximo
do outro, sendo que no mais alto ( a diferença é
mínima ), voltado para o Ferreiro cabem duas barracas,
no máximo três. No outro cume cabem duas barracas
pequenas ou uma bem confortável como a do Hilton
e sua Illimani.
O que mais atraiu no Ferraria foi sua natureza selvagem,
típica de um lugar muito pouco procurado pelas pessoas,
ainda mais hoje em dia, que o montanhismo virou moda...
No livro de cume o último registro constava de um
mês atrás! Ou seja um mês sem alguém
pisoteando o chão, fazendo necessidades em suas encontas
ou alimentando bichos com restos de macarrão instantâneo
que grudou na panela... O visual também é
belíssimo, principalmente o olhando o PP por um ângulo
diferente. Foi muito bacana. O setor norte da cadeia do
Ibitiraquire apresenta uma maior dificuldade de acesso o
que leva a uma beleza selvagem.
Acordamos cedo, já preocupados com a volta. Por um
breve momento cogitamos a hipótese de descermos rumo
à Conceição e tentar contornar a famosa
Fazenda dos Cachorros Infinitos, que bloqueava o caminho
até o Sítio Base ( Bruno ). Melhor era encarar
de volta o mesmo caminho que usamos para vir. Eu e a Thaís
partimos alucinados, pois não bebíamos nada
desde antes do amanhecer, e nosso "breakfast"
havia sido uma barra de chocolate para os dois... Foi o
que nos permitiu agüentar a marcha forçada até
a água mais próxima, na bica do PP. Descemos
arrepiando o Ferraria, escalamos com firmeza o Taipabuçu
e quando entramos na descida derradeira, rumo ao rio do
Caratuva estávamos com todo o gás, apesar
da sede. O plano era ir bem na frente, já que nos
sentíamos fortes e buscar água para o pessoal
que descia atrás.
Chegamos fantasticamente rápido na bifurcação
Caratuva-PP e elegemos este local como nossa base. Enquanto
a Thaís cuidava das mochilas, parti rumo à
bica do PP para buscar água. Sete litros ao todo,
o que seria suficiente para matar nossa sede e para levarmos
uns litros Taipabuçu acima, na tentativa de amenizar
a sede de nossos guerreiros que desciam mais lentamente,
em virtude do desgaste físico e da desidratação.
Fiz uma primeira tentativa levando dois litros na trilha
do Taipa porém depois de uns vinte minutos de caminhada,
não havia o menor sinal dos companheiros. Resolvi
deixar ali a água e voltar pois o cansaço
já batia forte novamente e eu precisava descansar
e, principalmente, me alimentar. Em seguida, já recomposto,
eu e a Thaís escondemos as mochilas no mato e partimos
novamente pois já se havia passado quase duas horas
desde que havíamos chegado à bifurcação.
Não demorou muito e encontramos o Vinícius
e o Hilton um pouco para cima de onde havíamos deixado
a água. Os dois beberam copiosamente e sentindo-se
melhores partiram com a gente para a bifurcação.
Nossa preocupação agora passava a ser a Kátia
e o Mineiro.
Havíamos deixado na trilha mais um litro de água
para os dois, porém mais uns trinta minutos eles
apareceram, para alegria de todos. O sufoco acabara!!
Descansamos todos e partimos rumo ao Bruno, que estava a
apenas uma hora dali, e em descida, lembrando as dificuldades
e rindo das agruras do fim de semana. Nem é preciso
dizer que chegamos todos em perfeitas condições
e exceto os muitos arranhões devido a trilha estar
bem fechada, em perfeitas condições físicas.
Óbvio estávamos cansados, porém a felicidade
e o orgulho de termos sido uma equipe unida e participativa
era muito maior. O Ferraria era um objetivo grandioso e
as demais dificuldades só serviram para enaltecer
ainda mais nossa aventura.
Resta agradecer ao Nosso Deus que permitiu que todos saíssemos
dessa numa boa, ao Tato da AMC, que nos emprestou o rádio
e a todos que de alguma forma colaboraram para que nos tornásemos
Guerreiros do Ferraria!!