Montanha, meio ambiente, amizade e, principalmente, Jesus
atualizado em 27.05.2003
AS ALTURAS
DOS MONTES PERTENCEM
A DEUS.

Salmo 95:4
 

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PROJETO 5 CUMES

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FERRARIA
A saga de 6 guerreiros
A narrativa que se segue agora é um relato fiel e franco dos acontecimentos dos dias 17 e 18 de agosto de 2002 em uma atividade oficial da programação da AMC - Associação dos Montanhistas de Cristo
Por George "Nas Nuvens" Volpão - www.nasnuvensmontanhismo.hpg.ig.com.br

Equipe Ferraria:
Hilton - Vinícius - George - Thaís - Kátia - Mineiro


Ferraria visto do PP.
Foto: George Nas Nuvens


Kátia, George, Thaís, Hilton, Vinícius e Mineiro no Taipabuçu, rumo ao Ferraria.
Foto: Patrik Gorsz.


Pico Paraná visto do Ferraria.
Foto: Thaís Nas Nuvens.


Casal Nas Nuvens no Getúlio (Piolho), com o Taipa e o Ferraria ao fundo.
Foto
: Mineiro.

Curitiba, 17 de agosto de 2002, quatro horas da manhã. O sono insiste em nos manter de olhos fechados mas algo nos espera. Aquele desejo latente de alcançar a montanha cobiçada nesta minha curta vida de montanhista está prestes a vir à tona. Esse desejo atende pelo nome de Ferraria.

O Ferraria localiza-se ao norte da Serra do Ibitiraquire, o "Himalaia" paranaense, como diz o Vitamina, expoente do montanhismo do estado. Sua altitude é de 1745 metros sendo o sexto mais alto do estado. É famoso pelo seu difícil acesso, ainda mais agora que a trilha que partia do planalto (Fazenda da Brasilsat) está fechada.

O Projeto Cinco Cumes, elaborado pela AMC, surgiu com a idéia de enviar cinco grupos para cinco cumes diferentes em uma atividade de fim de semana, todos eles equipados com rádio para comunicação entre si. Pico Paraná, Caratuva, Tucum, Ciririca e Ferraria, foram os escolhidos, pois do alto do cume de cada um deles poderiam os outros quatro serem observados à noite para a tradicional comunicação via lanterna.
Como no mês anterior a AMC havia realizado uma caminhada ao PP, desta vez ninguém se dispôs a ir ao PP. Tudo bem. O projeto passou para 4 cumes!

Definidas as equipes, acertados os detalhes e conferidos os equipos, tudo ok. Condições meteorológicas perfeitas e um alto astral de todos nos levaram a acordar tão cedo num sábado e partir via Br-116 rumo ao Ferraria.

A intenção era iniciar a caminhada Bruno, hoje Dilson, passando o Getúlio, entrando na Trilha do Caratuva, e no rio quebrar à esquerda indo direto ao Taipabuçu, onde depois do seu terceiro cume a trilha desceria até um vale, subindo em seguida para finalmente alcançar o alto do Ferraria. Parece simples mas não é não.
No início a dificuldade do Hilton e do Vinícius em encontrar este que vos escreve e a Sra Nas Nuvens, vulgo "Thaís", na residência da mesma. Quatro da manhã em ruas desconhecidas da zona sul de Curitiba foi complicado. A aventura só começava...
Chegamos nós quatro, Hilton, Vinícius, Sr e Sra Nas Nuvens pouco depois das seis da manhã ao Sítio Base do simpaticíssimo Dilson, com seu rosto amassado pelo sono. Encontramos então Kátia e Mineiro, acertando os detalhes de última hora. Não perdemos tempo e logo fomos galgando a Pedra do Grito com o lusco-fusco da aurora, prenunciando um céu azul que só o inverno paranaense é capaz de produzir.
A grande preocupação era com a trilha a seguir pois conhecíamos apenas parte dela, apesar das garantias dadas por nossos companheiros de montanha que não haveria dificuldades de orientação. O que nos preocupava era também a questão da água, porém haviam relatos que era possível encontrar o precioso líquido na travessia do Taipabuçu ao Ferraria.

Chegando no Morro do Getúlio o sol já brilhava forte e logo tomamos a trilha do Caratuva. Logo no início tem um riozinho mas como estávamos no inverno ele estava seco. Kátia e Mineiro rumaram até a Bica do PP, trazendo 1 litro de água para cada um visto que até o próximo ponto de abastecimento levaríamos umas três horas. Neste ponto nós encontramos mais dois companheiros da AMC que iriam bivacar no Taipabuçu, o que fez nosso projeto voltar a ser 5 cumes, apesar que eles não estavam com rádio comunicadores. Seguimos direto até o Taipabuçu, sob forte calor para esta época. Descansamos um pouco no cume e fomos procurar a continuação da trilha rumo ao Ferraria. Assim que achamos o grupo se reuniu e partiu descendo o Taipa. Em certos momentos a descida acompanhava o leito seco de um riacho e nada de água. Apenas poças sujas sobre cavidades nas rochas. Chegamos ao vale e nenhum riozinho!!
A difícil decisão de seguir em frente até o Ferraria foi tomada e tentaríamos buscar água do outro lado, descendo até a Trilha da Conceição. A preocupação era se iríamos chegar ainda de dia no cume. Ainda era cedo, umas duas da tarde, mas o cansaço batia forte, principalmente em mim, no Vinícius e no Hilton. Kátia, bem à frente, Mineiro e a Thaís que me arrastava morro acima estavam bem, apesar da sede.

Chegamos ao cume por volta das quatro e o Mineiro partiu alucinado rumo ao vale onde passa a Conceição onde havia água o ano inteiro. Assim que larguei a mochila fui atrás, julgando-me bem fisicamente. Mas logo o cansaço, a fome e principalmente a sede começaram a fazer seus estragos e minar minha resistência. Mineiro teve que descer só, com a intenção de voltar com 12 litros de água nas costas. Eu mal conseguia engatinhar de volta para o cume, muito extenuado e quando cheguei de volta ao cume, apaguei. Fiquei fora do ar uns 10 minutos. Logo recuperei a normalidade e vi a besteira que tinha feito ao tentar seguir até a água. Isso apenas tinha me desgastado mais. Agora já era. A noite se aproximava, o Mineiro estava sozinho procurando água e todos estavam bem cansados. A Kátia em um gesto de muita prestatividade, desceu ao encontro do Mineiro para ajudar a carregar a mochila pesada com água.
Foi uma alegria incrível quando por volta das sete da noite observamos a luz das duas lanternas subindo lentamente a encosta. Hilton e Vinícius, já um descansados desceram para ajudar também.
Durante todo o tempo estávamos em contato com o pessoal do Caratuva, do Ciririca e do Tucum, sempre nos dando força.
Enfim chegou a água. Um litro e meio por pessoa. Economizar era fundamental. Pelo menos conseguiríamos matar a nossa sede. Havia feito um forte calor durante o longo dia de caminhada e estávamos desidratados. A água era suficiente para cozinharmos e para nos reidratar um pouco. O nosso astral melhorou consideravelmente, com o bom-humor voltando a reinar como era de praxe em nossas caminhadas anteriores
Descansados, bem alimentados e reidratados, o sono bateu pesado. Literalmente capotamos, mas não sem antes compartilhar nossas desventuras com o pessoal que estava no Ciririca, no Tucum e no Caratuva. Os grupos que estavam nestas montanhas estavam bem e nos passaram muita tranquilidade, pois a volta no dia seguinte já nos preocupava.
Os locais para armar as barracas no Ferraria não os melhores que já havíamos visto, mas não eram tão desconfortáveis como haviam propalado por aí. Havia uma proteção contra o vento, que estava forte, pois o pessoal no Tucum nos relatou que lá era bem forte e atrapalhava o bom sono. É um cume apertado. Na verdade são dois, um bem próximo do outro, sendo que no mais alto ( a diferença é mínima ), voltado para o Ferreiro cabem duas barracas, no máximo três. No outro cume cabem duas barracas pequenas ou uma bem confortável como a do Hilton e sua Illimani.
O que mais atraiu no Ferraria foi sua natureza selvagem, típica de um lugar muito pouco procurado pelas pessoas, ainda mais hoje em dia, que o montanhismo virou moda... No livro de cume o último registro constava de um mês atrás! Ou seja um mês sem alguém pisoteando o chão, fazendo necessidades em suas encontas ou alimentando bichos com restos de macarrão instantâneo que grudou na panela... O visual também é belíssimo, principalmente o olhando o PP por um ângulo diferente. Foi muito bacana. O setor norte da cadeia do Ibitiraquire apresenta uma maior dificuldade de acesso o que leva a uma beleza selvagem.
Acordamos cedo, já preocupados com a volta. Por um breve momento cogitamos a hipótese de descermos rumo à Conceição e tentar contornar a famosa Fazenda dos Cachorros Infinitos, que bloqueava o caminho até o Sítio Base ( Bruno ). Melhor era encarar de volta o mesmo caminho que usamos para vir. Eu e a Thaís partimos alucinados, pois não bebíamos nada desde antes do amanhecer, e nosso "breakfast" havia sido uma barra de chocolate para os dois... Foi o que nos permitiu agüentar a marcha forçada até a água mais próxima, na bica do PP. Descemos arrepiando o Ferraria, escalamos com firmeza o Taipabuçu e quando entramos na descida derradeira, rumo ao rio do Caratuva estávamos com todo o gás, apesar da sede. O plano era ir bem na frente, já que nos sentíamos fortes e buscar água para o pessoal que descia atrás.

Chegamos fantasticamente rápido na bifurcação Caratuva-PP e elegemos este local como nossa base. Enquanto a Thaís cuidava das mochilas, parti rumo à bica do PP para buscar água. Sete litros ao todo, o que seria suficiente para matar nossa sede e para levarmos uns litros Taipabuçu acima, na tentativa de amenizar a sede de nossos guerreiros que desciam mais lentamente, em virtude do desgaste físico e da desidratação. Fiz uma primeira tentativa levando dois litros na trilha do Taipa porém depois de uns vinte minutos de caminhada, não havia o menor sinal dos companheiros. Resolvi deixar ali a água e voltar pois o cansaço já batia forte novamente e eu precisava descansar e, principalmente, me alimentar. Em seguida, já recomposto, eu e a Thaís escondemos as mochilas no mato e partimos novamente pois já se havia passado quase duas horas desde que havíamos chegado à bifurcação. Não demorou muito e encontramos o Vinícius e o Hilton um pouco para cima de onde havíamos deixado a água. Os dois beberam copiosamente e sentindo-se melhores partiram com a gente para a bifurcação. Nossa preocupação agora passava a ser a Kátia e o Mineiro.
Havíamos deixado na trilha mais um litro de água para os dois, porém mais uns trinta minutos eles apareceram, para alegria de todos. O sufoco acabara!!

Descansamos todos e partimos rumo ao Bruno, que estava a apenas uma hora dali, e em descida, lembrando as dificuldades e rindo das agruras do fim de semana. Nem é preciso dizer que chegamos todos em perfeitas condições e exceto os muitos arranhões devido a trilha estar bem fechada, em perfeitas condições físicas. Óbvio estávamos cansados, porém a felicidade e o orgulho de termos sido uma equipe unida e participativa era muito maior. O Ferraria era um objetivo grandioso e as demais dificuldades só serviram para enaltecer ainda mais nossa aventura.

Resta agradecer ao Nosso Deus que permitiu que todos saíssemos dessa numa boa, ao Tato da AMC, que nos emprestou o rádio e a todos que de alguma forma colaboraram para que nos tornásemos Guerreiros do Ferraria!!

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