Montanha, meio ambiente, amizade e, principalmente, Jesus
atualizado em 24.10.2005
AS ALTURAS
DOS MONTES PERTENCEM
A DEUS.

Salmo 95:4
 

andar departamento de caminhada


<ANTERIOR  ::  PRÓXIMA>

TRAVESSIA VÉU DA NOIVA - MORRO "7"
Uma aventura nos cumes da Serra da Farinha Seca

Depois de realizar a travessia Alpha-Ômega, (Canal - Marumbi), alguns envolvidos resolveram trabalhar em outra travessia semelhante, na Serra da Farinha Seca, ligando o Véu de Noiva (na estrada de ferro Curitiba-Paranaguá) ao Sete (na Serra da Graciosa). Os dois trajetos têm características semelhantes, cortando a Serra Paranaense no sentido Norte-Sul, numa extensão aproximada de 11Km.

Entre 94 e 96 fizemos várias visitas na parte norte da Serra da Farinha Seca, mas as informações eram escassas e imprecisas sobre a parte sul da serra. O desejo de realizar tal travessia, inédita até aquela data, nos obrigou, a partir de 96, a realizar uma série de investidas nesta região desconhecida.


3ª INV. Sul da Farinha Seca, acampamento na região do Véu de Noiva.


3ª INV. Cover e Canidia caminhando no leito de um rio, em direção aos Campos do Cipriano.


3ª INV. Conjunto Marumbi, o Morro do Leão, e as encostas do Morro Isolado, vistos da região do Campo dos Ciprianos.


3ª INV. Canidia, Daniel e Cover acampados no Campo dos Ciprianos. Ao fundo o Morro Isolado.


Tavinho no cume do Pão de Loth, em agosto de 1997, observando de binóculo detalhes da futura travessia na Serra da Farinha Seca.


4ª INV. Cover e Tavinho no cume do Pequeno Polegar. À esquerda, o cume do Morro "7".


5ª INV. Rodrigo "Camarão" e Canidia caminhando no leito de um rio em direção ao Pico da Farinha Seca.


3ª INV. Canidia e Rodrigo "Camarão" atravessando uma das piscinas do rio do Meio.


6ª INV. Caminhando na ferrovia Curitiba-Paranaguá, rumo ao Véu de Noiva.


6ª INV. Da esquerda para direita: Sérgio "Quindim", Cover, Silmar, Tavinho e Canidia, em frente à Cachoeira Rui Barbosa, na região do Campo dos Ciprianos.


6ª INV. Da esquerda para direita: Cover, Canidia, Sérgio "Quindim", Silmar e Tavinho no Campo dos Ciprianos.


6ª INV. Subida do "Morro da Avalanche", ao fundo o Campo dos Ciprianos e o "Morro Isolado".


6ª INV. Caminhando no "rio Plano", durante a retirada.


6ª INV. Tavinho, Cover, Sérgio "Quindim" e Canidia, chegando ao Campo dos Ciprianos, após 6 horas de caminhada pelo "rio Plano".


INV FINAL. Tavinho e Cover caminhando no topo do "Morro Isolado", ao fundo o Pão de Loth, Corvo e Anhangava.


INV FINAL. Canidia e Tavinho, logo após a subida do vale da Cachoeira Rui Barbosa. Ao fundo, Marumbi e as encostas do "Morro Isolado".


INV FINAL. Campos de altitude na região do Farinha Seca. Ao fundo o "Morro dos Macacos" e a Serra do Marumbi ao Canal.


INV FINAL. O Conjunto Marumbi visto do cume do "Morro dos Macacos".


INV FINAL. Lauro, Tavinho e Canidia, com o Morro Pelado e a Serra da Baitaca ao fundo.


INV FINAL. Subida do 00B, no 2º dia de caminhada da 8ª e última investida.


INV FINAL. Acampamento no cume do 00B.


INV FINAL. Cover e Tavinho ao lado do livro de registros do Morro "7", ao final da travessia.


INV FINAL. Cover na Estrada da Graciosa, final da travessia.


INV FINAL. Tavinho no recanto Engº Lacerda, ao final da travessia, apontando para o perfil do Morro "7" na placa de sinalização.

1ª INVESTIDA
A idéia da travessia tomava forma em julho de 1996. No dia 20 o Edenilson (Canidia) e eu (Giancarlo - Cover) descemos o Itupava, bivacamos na Estação do Véu de Noiva e no dia seguinte subimos uma montanha que faz parte do Coroados, de onde foi possível observar a parte sul da Farinha Seca. Entre as três cordilheiras da parte sul há uma região plana coberta por campos, os "Campos do Cipriano". Com esta investida obteve-se o primeiro contato visual com a tão escondida parte sul da Farinha Seca. Os planos já estavam traçados, mas a segunda investida demorou.

2ª INVESTIDA
Só voltamos à região em julho de 1997. Partimos pelo Itupava, eu (Cover), Canidia, Gustavo (Tavinho) e o Sérgio (Quindin, irmão do Silmar, antigos membros dos Montanhistas de Cristo). Estávamos preparados para encarar cincos dias de investida, mas a chegada de uma frente fria inesperada, alterou nossos planos e realizamos apenas um "ataque" à mesma montanha que subimos na 1ª investida.

3ª INVESTIDA
No último final de semana antes do 7 de Setembro, Canidia, eu (Cover), Daniel (Doceiro) e o Quindim, avançamos pela parte sul da serra. Na manhã do sábado subimos a "montanha isolada" e azimutamos os Campos do Cipriano. O plano era atravessar os Campos e montar acampamento no topo da primeira montanha da "cordilheira do meio" - o "Morro da Avalanche". Mas os campos não eram só campos e os planos foram "por água abaixo", nos obrigando a fazer um "acampamento forçado" e retornar dali, no domingo. Chegamos em Borda do Campo às 9h da noite, totalizando 21 horas de caminhada em apenas 2 dias.

4ª INVESTIDA
No feriado do 7 de setembro resolvemos "inverter a carta" e tentar uma investida pela parte norte da serra. Desta vez participaram eu (Cover), o Lauro e o Tavinho. Subimos o morro Mãe Catira com tempo ruim e acampamos no cume. No domingo o tempo melhorou, e percorremos o grande vale do Rio Taquari, passando pelo Pequeno Polegar (onde deixamos um livro de cume) e acampamos no 00B. No trajeto, passamos por um pequeno cume escondido que apelidamos de "Casfrei". No dia seguinte prosseguimos em direção ao Pico da Farinha Seca, seguindo um leito de rio. Depois de horas de caminhada, atingimos uma fazenda na localidade do Rio do Meio. Percebemos que a travessia era bem mais complicada do que imaginávamos. Foram gastas 19h30 de caminhada nesta investida. Somando-se os tempos de caminhada das duas últimas investidas totalizava-se 40h30 de "passeio" pela serra.

5ª INVESTIDA
Desta vez o objetivo principal era escalar o Pico da Farinha Seca, ponto médio da travessia. No sábado, dia 10 de janeiro, saímos de Quatro Barras eu (Cover), Canidia e o Rodrigo Machado. O percurso seria por um rio que desce do pico e passa perto da localidade do Rio do Meio. Naquela semana havia chovido todos os dias, e assim continuava naquele sábado. O nível do rio estava muito alto e em alguns trechos foi preciso caminhar com a mochila no ombro e a água na altura do peito. Acabamos desistindo porque andávamos duas vezes mais devagar que o planejado e porque estava muito frio, e estávamos molhados da cabeça aos pés.

6ª INVESTIDA
Os cinco dias do feriado do carnaval de 1998 tornavam mais do que obrigatória uma tentativa final. Desta vez participaram o Canidia, eu (Cover), Quindim, Silmar e o Tavinho. Saímos da Borda do Campo às 5 horas da manhã, debaixo de garoa, em direção ao Véu de Noiva pelo Caminho do Itupava. Subimos o "Morro Isolado" e descemos em direção aos Campos do Cipriano. No final da tarde subimos o Morro da Avalanche e montamos as barracas no cume. Foram 13h de caminhada.
No domingo o tempo fechou e um denso nevoeiro não deixava visualizar nem 10 metros à frente. Seria necessário "navegar" de bússola num dos locais mais desconhecidos da Serra. Mudamos os planos e, ao invés de continuarmos pelas cristas das montanhas, avançamos por um rio entre as "serrinhas" do sul da Farinha Seca. O rio era quase uma "lagoa", comprida e estreita, sem corredeiras, e sem pedras no leito, o que nos obrigou a caminhar por dentro dele, com água pela cintura, durante 5 horas. Estava muito frio e depois da "aula de natação" resolvemos azimutar uma "provável" montanha à direita. Às 17h30 atingimos um local inesperado: uma crista comprida que caía bruscamente para a direção que seguíamos. Fomos obrigados pelo frio e pela chuva a acampar por ali mesmo, completamente molhados. A situação estava complicada e o jeito foi abandonar a idéia de travessia e tentar voltar, em um só dia, por onde viemos. Foi a sexta investida, e mais uma vez a natureza falou mais alto.

7ª INVESTIDA
A travessia não era mais um compromisso e sim um desafio, uma questão de honra! Nos dias 14 e 15 de março de 1998, o Canidia e o Lauro realizaram a sétima investida - a terceira na parte norte. Subiram o Farinha Seca pela localidade do Rio do Meio e montaram acampamento no cume, onde quase foram fulminados por raios. No dia seguinte desceram do cume no sentido oeste, e subiram uma elevação próxima do Farinha Seca, mas que estava fora do provável percurso da travessia. Deste local foi possível analisar bem detalhadamente o trecho médio da travessia (ao sul do Farinha Seca). A descida foi pelo rio Capivari-Mirim e outro temporal incomodou a equipe. Uma "cabeça d´água quase os pegou no rio. No pé da serra o rio inundou as pastagens das fazendas e foi preciso caminhar com água pela cintura no meio de bambuzais durante algumas horas. Foi uma investida que assustou a turma.

8ª INVESTIDA
Aproveitamos o feriado do dia do trabalho, 30 de abril de 1998. Saímos da estação de Roça Nova às 23h30. Estavam no grupo o Canidia, eu (Cover), o Lauro e o Tavinho. Desta vez era tudo ou nada! Caminhamos pelo trilho do trem até a Estação de Banhados e bivacamos lá. No dia 1º de maio saímos de madrugada, na direção do "Morro Isolado". Alcançamos o cume com o dia belíssimo, propiciando um visual do litoral, e das Serras da Farinha Seca e do Marumbi. Descemos em direção aos Campos do Cipriano e seguimos nossos rastros do Carnaval até no cume do "Morro da Avalanche". Já era mais de 14h00, resolvemos desviar da rota do carnaval (pelo "rio plano"), seguindo em direção a um morro que apelidamos de "Morro dos Macacos", por estar lá a nascente do Rio dos Macacos. Chegamos neste cume às 18h00, sem sol, mas não dava pra acampar lá devido a uma densa floresta de altitude. O jeito foi descer rapidamente em busca de uma brecha em meio à floresta. Armamos acampamento numa encosta inclinada, com lanternas, e usando os facões como enxadas para regularizar o terreno. Jantamos dentro da mata, iluminados por uma bela lua crescente. Foram 11 horas de caminhada.

Na manhã seguinte, madrugamos novamente com o objetivo de chegar ao 00B antes de escurecer. Caminhamos em direção a um grande morro de campos, passamos pelo local onde pernoitamos a segunda noite do carnaval de 1998, na sexta investida, e partimos logo em direção ao Farinha Seca. Restavam seis horas de luz, e precisávamos avançar mais 2 Km. O tempo piorou e ameaçava chover. Quando chegamos no cume, nuvens carregadas vinham do litoral e logo encobriram a serra. Apesar de tudo, seria possível chegar no 00B até às 18h00 e o sucesso da travessia dependia disto. Deixamos um livro de registros no cume, e descemos o vale em direção ao 00B, com um nevoeiro que tornava "macabro" vários locais, principalmente os fundos de vale: escuros, sombrios e gelados! A preocupação era a orientação nos campos de altitude, já que a neblina não permitia orientação visual, e pelo adiantado da hora não podíamos nos perder. A "profecia" se realizou. Eram 17h30, o sol estava se pondo, e nós estávamos "encalhados" em meios as densas florestas de altitude. O jeito foi "chamar" a velha companheira bússola. Conseguimos chegar no cume às 18h15, quase na escuridão total. Mas tudo era festa, pois esta era a cartada final. Mais uma vez montamos as barracas com lanternas.
No domingo, 3 de maio de 1998, começamos a caminhar cedo, com garoa e um pouco de frio. A caminhada seguiu pelo cume do Casfrei, e do Polegar. Agora era só ir para a "bandeirada final". Chegamos no cume do Mãe Catira, deixamos as mochilas e descemos até no morro "7" onde chegamos às 13h35.

COMEMORAÇÃO TOTAL
Depois de mais de um ano e meio, oito investidas e muita caminhada, a travessia estava completa! Estava muito frio, batemos as tradicionais fotos, comemos uma comidinha para comemorar, e brindamos com água mesmo, pois até os sucos em pó já haviam acabado. Assinamos o livro de registros, no qual fizemos uma rápida descrição da travessia e escrevemos uma homenagem ao Oséas ("Black") que faleceu no Morro Balança em 1997, quando tentava fazer esta travessia em solo. Agradecemos também a todos os amigos que nos ajudaram nas investidas e não puderam concluir a travessia junto conosco: Daniel, Rodrigo, Sérgio ("Quindim") e o Silmar. Ainda tínhamos que pegar o ônibus na Graciosa, por isso subimos novamente o Mãe Catira, e descemos em ritmo acelerado até o recanto Engº Lacerda.

UM SONHO!
Totalizamos 32 horas de caminhada desde a região do Véu de Noiva. Depois de 3 dias andando no meio do mato, com cipó segurando na canela, bambu enroscando na mochila e caraguatá espetando a perna, era estranho caminhar na estrada. Andávamos até meio tortos e levantando a perna mais alto que o normal. Do jeito que nos recepcionaram no recanto da Graciosa parecia que estávamos voltando da guerra. Não sei se parecíamos mendigos ou fugitivos de batalha, com as mochilas todas sujas, camisas manchadas de tanto barro e as calças todas rasgadas pela vegetação. Só para dar uma idéia, tinha um de nós que não tinha metade da perna direita da calça (a perna esquerda era calça, e a perna direita era bermuda). Melhor do que o gosto do caldo de cana do recanto só mesmo o gosto da vitória. Fazia um ano e dez meses que tínhamos este plano "engasgado na garganta" e parecia que a conclusão da travessia era um sonho, mas o sonho era real: a travessia estava completa.

É muito recompensador relembrar as investidas frustadas e as roubadas. Foram muitos momentos inesquecíveis de alegria, surpresa, contemplação de paisagens, cansaço, frio, decepção, e muitos outros, como a sensação de acordar molhado sabendo apenas que estávamos em algum lugar da Serra do Mar, muito longe do ponto de civilização mais próximo.

Ao pensarmos na conclusão de uma caminhada deste tipo imaginávamos que com este feito descobriríamos novas regiões da serra, novas trilhas, novas paisagens, mas na verdade, além disso, descobrimos que a Serra do Mar guarda surpresas e segredos onde menos imaginamos, que existem locais onde um simples passeio é uma aventura e tanto, e que, às vezes, a natureza "fala" mais alto. Os moradores dos "pés-de-serra" têm histórias interessantíssimas, que contam humildemente, de verdadeiras aventuras montanheiras nas quais andaram em regiões difíceis da serra, de bota sete léguas e carregando o cobertor dentro do saco de estopa que vai pendurado nas costas! Como diz um velho ditado: "A espingarda não faz o caçador". Enquanto isso têm muitos que se julgam exímios montanhistas por estar usando uma bota de Goretex...

Fomos obrigados a respeitar ainda mais a Serra do Mar, pois apesar das montanhas existentes ao longo desta travessia não serem tão altas quando comparadas as gigantes do Ibitiraquire, esta travessia se demonstrou difícil e bastante trabalhosa (na opinião de alguns, mas difícil que a famosa Travessia do Canal ao Marumbi - Alpha-Ômega), motivos pelos quais até a atual data (setembro de 2005) não há notícias de nenhuma repetição deste percurso "Véu de Noiva - Morro 7".

Giancarlo Castanharo - "Cover"
Setembro de 2005

 


<ANTERIOR  ::  VER TODAS AS NOTÍCIAS  ::  PRÓXIMA>

 contato@montanhistasdecristo.com.br     HOME