Acidente
aéreo.
Por Tuco.
Num
fim de semana de novembro de 1996, fui com minha família
para Bombas, litoral de Santa Catarina. Levamos algum equipo
de escalada e os parapentes. O tempo esteve ruim durante
a viagem, mas no sábado o sol saiu. Fomos até
a praia de Canto Grande, no Morro do Macaco, com os parapa.
No cume do morro (repleto de boulders) encontramos outro
voador aqui de Curitiba. Ele foi o primeiro a decolar, seguido
por mim e pelo Tato. Um vôo agradável com uma
vista espetacular porém rápido demais (uns
5 min). Resolvemos, eu e o Tato, voltar para Bombas e tentar
um vôo mais longo ali mesmo.
A
decolagem em Bombas é bem mais complicada. Um morro
baixinho e relativamente sem graça, mas pela sua
posição apresentava melhores possibilidades
de vôo. Eu já havia decolado dali outra vez
e consegui um vôo de mais de meia hora no "lift".
No litoral, o vento que sopra constantemente do mar para
a terra durante o dia proporciona vôos muito agradáveis
no que chamamos de "lift". É o vento que
acompanha o relevo e oferece sustentação para
o piloto por estar vindo de baixo para cima. Numa velocidade
razoável (de 10 a 20 km/h) este vento permite vôos
de várias horas, muitas vezes permitindo ao piloto
ganhar altura bem acima da decolagem.
O
Tato decolou primeiro e eu fui em seguida. Era aproximadamente
meio-dia, o vento variava de 10 a 15 km/h. Voamos durante
15 ou 20 minutos quando comecei a sentir problemas. Na intenção
de ganhar um pouco mais de altura, para ver o outro lado
do morro (Porto Belo), eu me aproximei demais da crista.
O mesmo vento que forma o lift na frente do morro, forma
o "rotor" atrás, logo após a crista.
É fácil de imaginar que entrar no rotor causa
problemas sérios de vôo. Eu realmente ganhei
altura e pude ver o outro lado quando me aproximei da crista,
mas quando tentei retornar, percebi que o vento estava bem
mais forte que na decolagem. Não conseguia ir para
frente e fui arrastado lemtamente pelo vento até
o rotor. Fiz tudo que podia mas o vento estava forte demais.
Senti os primeiros chacoalhões e continuei indo de
ré. Meu irmão (Tato) estava próximo
e gritava algo que eu não podia entender. Com o efeito
do rotor comecei a levar as primeiras fechadas e perder
altura rapidamente. A queda foi rápida e assustadora.
Enquanto eu tentava inutilmente fazer alguma coisa, as árvores
cresciam debaixo dos meus pés. Num breve instante
já estava batendo contra elas.
Quando
tudo parou, eu estava suspenso a uns dois metros do chão
com a vela enroscada num coqueiro. Eram 12h30 aproximadamente.
Eu estava bem, só havia batido o joelho com bastante
violência em uma árvore, mas, com dificuldade,
podia caminhar. Durante uma hora esperei que me encontrassem.
Ouvi algumas vozes e berrei para me localizarem, mas as
vozes diminuíram até desaparecerem no mato.
Não sabia se havia caído mais próximo
de Bombas ou de Araçá, uma prainha logo antes
de Porto Belo. Era uma mato muito fechado, repleto de "capim
navalha" e eu estava só de bermuda, camiseta
e sandália. Achei que seria difícil me encontrarem
e resolvi caminhar. Tentei ir para Araçá,
mas o avanço era muito lento e doloroso, por causa
do joelho e do capim navalha cortando meus pés e
pernas. Andava marcando o caminho para poder retornar se
preciso. Comecei a ficar nervoso e enquanto andava orava
pedindo que Deus me ajudasse a tomar o rumo certo. Foi quando
decidi retornar ao parapente e seguir na outra direção
até Bombas. Caminhei mais algumas horas, já
estava com os pés, pernas, mãos, braços
e rosto muito cortados e sangrando. Caminhava e orava pedindo
a Deus para chegar na praia em segurança. Caminhei
lentamente, sem parar, abrindo caminho num mato muito fechado,
num calor de lascar. Os cortes novos já não
doíam mais. Caía, rolava, levantava e seguia
caminhando, realmente muito cansado e doído. Quando
o sol começou a desaparecer, ainda nem ouvia o mar.
De repente ouvi uns sons, pouco depois encontrei um cano
de captação de água e o segui até
uma casa na encosta do morro, em Bombas.
Quanta
alegria e gratidão a Deus. Caminhei até o
carro e de lá pra casa. Enquanto estava no mato,
minha família orava por mim, e eu tenho certeza que
Deus esteve comigo e graças a Ele, apeser de tudo,
o final foi feliz.
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