1ª
Repetição da Via Afanassief, no Fitz Roy
Após
27 anos de sua conquista, a via Afanassief, na aresta noroeste
do Cerro Fitz Roy tem sua 1ª repetição,
feita por uma equipe sulamericana, formada pelos brasileiros
Edemilson Padilha e Valdesir Machado e pelo argentino Gabriel
Otero.
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Face leste do Conjunto Fitz Roy, à esquerda
ainda temos a Aguja de La S. Escalamos a Saint Exupery
pela face visível nesta foto e o Fitz escalamos
pelo outro lado e rapelamos pela via Franco-argentina,
que está na aresta sudeste, também visível
nesta foto. Edemilson Padilha

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Brasil no cume do Cerro Fitz Roy! Gabriel Otero
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Bloco de cordadas mais difícil da via Afanassief,
no Fitz Roy Valdesir Machado

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Ed tendo de driblar o gelo das fissuras na Afanassief
Valdesir Machado

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Foto do pseudo-croqui dos norte-americanos, da via
Afanassief, no Fitz Roy Edemilson Padilha

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Ed, Val e Gabri no cume da Saint Exupéry Edemilson
Padilha |
A
síntese do alpinismo resume-se em uma palavra:
autonomia. E autonomia para um escalador significa
sair de um acampamento base carregando o estritamente
necessário, mais suas habilidades conquistadas
ao longo de anos de erros e acertos. É um desprendimento,
nos desvencilhamos da mochila cargueira repleta de
equipamentos que confere uma falsa segurança
a um escalador. E nesta temporada na Patagônia
nos aprofundamos nesta arte.
Chegamos
em El Chaltén num sábado à noite
e fomos recepcionados por nossos "hermanos"
argentinos Javi e Loro. Nosso acampamento já
estava montado. Era só nos instarmos e prepararmos
as mochilas para escalar. Assim fizemos, e doias dias
depois iniciamos nossa primeira tentativa. Rumamos
para a via Buscaini, na Agulha Saint Exupery, pois
queríamos aproveitar cada janela de bom tempo.
Esta via foi conquistada em 1968 por uma equipe italiana
e percorre a aresta leste da montanha por 850 metros
de escalada em rocha e gelo. O nome deve-se a fazer
parte da equipe o escalador Gino Buscaini que foi
um dos grandes exploradores das montanhas Patagônicas.
Nosso
plano era o de escalar em duas duplas: Edemilson Padilha
(BRA) e Valdesir Machado (BRA); William Lacerda (BRA)
e Gabriel Otero (ARG). Pegamos uma tempestade na décima
cordada da via e já era, descemos. Durante
o caminho de volta senti que estávamos um pouco
pesados. Aquilo me incomodava, no Brasil sempre tentamos
reduzir ao máximo o peso para aumentar a velocidade.
Na segunda tentativa resolvemos inovar, e saímos
de Chaltén com a intenção de
fazer a aproximação, escalar e retornar
praticamente sem parar. Os outros escaladores não
acreditaram quando saímos do camping com mochilas
de 40 litros. Agora éramos três: eu,
Val e Gabri. Fizemos a caminhada de aproximação
muito mais rápido e quando anoiteceu estávamos
atravessando o glaciar para chegar à base da
via; começamos a escalar às 2 da madrugada
e, ao amanhecer, já estávamos na décima
terceira cordada, de um total de 28. Eu e Gabri revezávamos
a ponta da corda, pois o Val tinha um dedo do pé
estourado por um bloco e estava de "jumar de
ouro". Da 14ª à 18ª cordada
foi o trecho mais vertical da via, com cordadas de
6a a 6c francês. Depois veio a cordada da "ponte
de pedra" que foi impressionante e também
deu muito medo, pois tivemos de subir por uma pilha
de blocos encaixados que pareciam que estavam para
cair. Neste ponto chegamos ao terço final da
montanha, onde tivemos muitos trechos com neve e um
sem fim de zique-zagues. Quase no final, o Val decidiu
guiar uma cordada de 6b com bota num pé e sapatinha
em outro; quando chegou ao final pôde avistar
o conjunto todo do Cerro Torre. Mais duas cordadas
e pudemos curtir a vista do cume da Agulha Saint Exupery,
depois de 16 horas de escalada. Comemos, hidratamo-nos
e iniciamos os rapéis, os quais adentraram
a noite. Quando cruzamos novamente o glaciar, o cansaço
já se fazia presente - escutávamos vozes,
música e de vez em quando pensávamos
que estávamos em um bosque. Foi literalmente
alucinante. Pisamos em El Chaltén 48 horas
depois de sairmos, e comprovamos nosso estilo leve
e rápido, pois durante os rapéis o tempo
virou e quando chegamos à cova de la S, que
era um ponto protegido, começou a chover. Se
tivéssemos demorado algumas horas a mais, talvez
não obtivéssemos sucesso.
Alguns
dias de engorda em El Chaltén, regados por
boulders, slack line, auxílio em um resgate
e elegemos nosso próximo objetivo: o Cerro
Fitz Roy. Devido a grandes nevascas, a face voltada
para o leste estava congelada. Voltamos nossos olhares
para a face oeste; avaliamos as alternativas, falamos
com o Dean Potter (escalador norte-americano) que
já tinha feito a Supercanaleta e com a Roberta
Nunes (escaladora brasileira) que já havia
feito boa parte da via Afanassief, acompanhada do
já falecido Jose Pereira (Venezuelano). |
Coletamos
todas as informações sobre aquele lado da
montanha e decidimos entrar na gigante Via Afanassief ,
nome do idealizador da Expedição Francesa
que a conquistou em 1979. As informações que
tínhamos eram desoladoras: 2300 metros de via, sem
croqui, pois o Afanassief não quis fazer; na face
mais desprotegida do vento, com uma janela duvidosa de 2
dias ventosos; 27 anos que a rota foi conquistada, nunca
ninguém tinha conseguido repeti-la; ou seja, tudo
a favor...
Saímos
de Madsen, nosso camping em El Chaltén, com uma idéia
fixa na cabeça: pouco equipo, muita velocidade. Fizemos
a caminhada de aproximação que passa pelo
camping Piedra Del Fraile e depois pelo bivaque Piedra Negra,
onde tiramos um cochilo, pois sabíamos que não
passaríamos bem a noite sem nossos sacos de dormir.
Cruzamos o Passo Del Quadrado e adentramos no espantoso
vale da face oeste do Fitz Roy. Porém, espantados
mesmo, ficaram os norte-americanos que estavam no bivaque
da base da via, quando dissemos que íamos todos para
a mesma via. Nunca ninguém repete esta rota e no
dia seguinte teríamos duas cordadas na via, que coincidência.
Encontramos
uma pedra plana para dormir no mar de blocos de rocha que
é base da via. Por sorte tinha água corrente
do glaciar que se derretia. Enchemos nossas 3 garrafas e
na volta demos de cara com os restos mortais de um escalador,
uma massa de ossos e equipos horripilante; tiramos algumas
fotos e as entregamos aos guarda-parques posteriormente.
Passamos uma noite gelada dentro de nossos sacos de bivaque,
acordamos cedo para o café da manhã e nos
dirigimos para a base da via, mas a outra equipe nos passou
na rampa de gelo de acesso, pois não levávamos
grampons para todos, para reduzir peso. Quando chegamos
à base nos disseram: "nós vamos na frente",
ao que respondemos: "nós estamos mais leves
e iremos mais rápido". Eles não acreditaram
e começaram a escalar e nós no seu encalço;
eles tiravam o pé de uma agarra e nós já
colocávamos a mão. E seguimos nesta "peleia"
por quase 1000 metros de via, foi quando chegamos ao crux
da via, uma parede empinada de uns 400 metros, com um começo
não muito óbvio, gelo nas fissuras e três
gringos dizendo que iam montar seu bivaque (era 1:00 da
tarde) e que poderíamos passar. Mostraram-nos uma
foto plastificada da face oeste do Fitz com a linha da via.
Pedimos para tirar uma foto deste pseudo-croqui, o qual
nos foi útil mais acima. Voamos por cordadas duras
de 6º grau francês e paramos para bivacar quando
não podíamos mais escalar pela escuridão.
Macarrão, café quentinho, uma repisa torta,
cheia de pedras, muito frio; se o bivaque anterior era 4
estrelas, este era só 2 estrelas; por sorte a comida
era boa e conseguimos dormir um par de horas.
Amanheceu e pela previsão dos irmãos Huber,
teríamos uma quarta-feira esplêndida, mas não
era o que se delineava. Muitas nuvens no oeste e que se
acercavam ameaçadoras. Estávamos muito alto
para descer. Rapelar 1500 metros abandonando todo nosso
equipamento não estava em nossos planos. Seguimos
adiante, pois o vento não estava forte e as nuvens
não muito carregadas. Passamos uma manhã de
mãos congeladas, pelo gelo nas fissuras e porque
escalávamos na sombra. Mais acima saímos da
geladeira e fomos brindados com um sol maravilhoso, um pouco
de vento, mas o mais importante é que o Gabri viu
o Pacífico! Não sabemos se foi uma visão,
pela falta de sono, mas a verdade é que depois das
nuvens que estavam sobre o gelo continental, no oeste, o
céu estava limpo, o que era um bom sinal.
O
Val guiou uma cordada de off widt, a mais dura da via toda,
protegendo do jeito que deu, pois nossa maior peça
era um camalot #4 e entramos na canaleta final, que leva
ao cume. Muitos metros fáceis, porém tendo
de desviar o tempo todo das partes congeladas pelo verglás
que sempre se forma perto do topo. Escutávamos as
rajadas de vento estourando na aresta que nos protegia.
Seguimos boa parte em simultâneo e, com céu
aberto, às 19:30 pisávamos o cume do Mr. Fitz
Roy, depois de 36 horas de escalada! A via Afanassief agora
já tinha uma repetição, depois de 27
anos! Estávamos flutuando e ainda de quebra, livramos
a via, que antes de nossa repetição tinha
partes em artificial!
Um pouco de vento e muita preocupação com
a descida, pois não conhecíamos a via de rapel.
Fotos rápidas; vestir as botas, pois escalamos toda
a via com sapatilhas; colocar as polainas, um grampon; ajeitar
as cordas, preparar o material para abandono...e iniciamos
os rapéis. De cara já tivemos de sair montando
os pontos de rapel, pois havia muita neve e estes estavam
escondidos. Descemos no rumo enquanto havia luz, depois
nos perdemos completamente e seguimos a intuição,
pois não víamos a direção. Buscávamos
uma plataforma para passar a noite e não encontrávamos;
quanto mais descíamos, pior se apresentava a parede.
Até que achamos um lugar para passar a noite sentados,
talhamos um platô de gelo com os piolets, derretemos
três panelas de neve para fazer suco, que bebemos
vorazmente, pois a água já havia acabado antes
de chegarmos no cume. Víamos as luzes de Chaltén
e isto nos deixava ainda mais ansiosos para descer da montanha.
Quando terminamos de nos ajeitar o dia nasceu; por sorte
estávamos protegidos do vento que soprava do oeste.
Posso dizer que este bivaque era 1 estrela, pois até
a comida não esteve boa.
A luz do sol nos deu ânimo novo, mas a alegria durou
até o momento em que puxamos a corda e ela enroscou
num ponto extremamente difícil de soltar. Este foi
um dos momentos mais tensos da escalada, pois estávamos
perdidos, tínhamos passado uma noite gelada, sem
dormir e agora a corda enroscava. Foi difícil manter
a calma e resolver uma coisa de cada vez, sem entrar em
pânico. Com malandragem, o Gabri a desenroscou, passamo-la
no ponto de rapel, e eis que eu desço 10 metros e
encontro o diedro bem marcado da Franco-argentina! Passamos
de um estado de pânico para o êxtase. Encontramos
o Thomas Huber e seu parceiro Andy mais abaixo tentando
a via pela qual descíamos. Eles não entenderam
nada, pois todas as cordadas que tentavam a montanha pelo
leste haviam sido rechaçadas pelas condições
da parede ou pelo vento. E nós vínhamos do
cume!
Rapelamos
tranqüilamente e mais abaixo paramos pra descansar
e comer algo; encontramos um buraco na rocha cheio de água,
acho que tinha uns 4 litros. Jogamos um pacote de suco dentro
e tomamos com um canudo, foi surreal. Mais sete rapéis
na Brecha dos Italianos, que é incrivelmente protegida
do vento e pisamos no glaciar. Uma das cordas já
era, sua capa estava cortada. Nos encordamos na outra e
começamos a cruzar o Glaciar do Passo Superior que
dá acesso às covas de gelo e depois ao Lago
de Los Tres, onde deixamos o gelo e as gretas horripilantes
para trás, para caminhar por uma trilha normal até
o Acampamento Base Rio Blanco. Aí tomamos uns mates
com os brasileiros e festejamos juntos nossa escalada. Eles
nos contaram que os guarda-parques estavam à nossa
procura. Seguimos ainda até Chaltén, onde
encontramos os norte-americamos que estavam conosco na via
e que haviam rapelado do ponto de bivaque no meio da parede.
Disseram que estavam muito preocupados e que eles é
que tinham contatado os guarda-parques para acionar um resgate.
Foram quase 4 dias da saída de Chaltén até
o retorno. Não podíamos acreditar, ninguém
podia acreditar, foi uma escalada dos sonhos, que fluiu
naturalmente, em que seguimos nossos instintos, nossa intuição
e nosso coração. Tudo aconteceu da maneira
que deve ser, ou seja, de forma perfeita.
Texto:
Edemilson Padilha
História da conquista da Via Afanassief
(fonte: www.tecpetrol.com/patagonicos/cuaderno04)
Na
mesma época em que Casarotto lutava para abrir uma
rota no pilar norte, um grupo de franceses estava empenhado
em resolver um dos maiores problemas do Fitz Roy: abrir
uma via em sua muralha ocidental.
Os
franceses orientaram sua tentativa para a crista noroeste,
que, apesar de ser muito grande, parecia oferecer boas oportunidades
de subida. Do grupo, fazia parte Jean Afanassief, astro
nascente do alpinismo francês, quem tinha em seu currículo
numerosos e importantes feitos sobre as montanhas de todo
mundo, e que, 2 anos antes havia podido superar o Fitz Roy
com o norte-americano Mike Weiss. Em somente 19 horas haviam
feito a primeira repetição da Supercanaleta.
Faziam parte da expedição francesa de 1979
Jean e Michel Afanassief, G. Albert, J. Fabre e G. Sourice.
Mesmo
com o tempo péssimo, eles lograram transportar víveres
e equipo até o pé da parede. Dez dias depois
da sua chegada o tempo melhorou permitindo começar
a verdadeira ascensão. Enquanto os irmãos
guiavam as difíceis cordadas da via, Sourice filmava
e os outros encordavam a parede. Depois de subirem 300 metros
neste estilo, alcançaram o ponto máximo de
precedentes tentativas de outras expedições.
Porém, três dias mais tarde, quando voltaram
à parede encontraram sua barraca destruída
e as cordas fixas inutilizáveis. Todavia, no dia
24 de dezembro, em perfeito estilo alpino, retomaram a escalada
e, apesar das grandes dificuldades técnicas (Vº
A2 ED+) e do tempo estar piorando, alcançaram o cume
após bivacar 4 vezes na parede.
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