Montanha, meio ambiente, amizade e, principalmente, Jesus
atualizado em 20.11.2006
AS ALTURAS
DOS MONTES PERTENCEM
A DEUS.

Salmo 95:4
 

notícia 17/03/06


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1ª Repetição da Via Afanassief, no Fitz Roy
Após 27 anos de sua conquista, a via Afanassief, na aresta noroeste do Cerro Fitz Roy tem sua 1ª repetição, feita por uma equipe sulamericana, formada pelos brasileiros Edemilson Padilha e Valdesir Machado e pelo argentino Gabriel Otero.


14 Face leste do Conjunto Fitz Roy, à esquerda ainda temos a Aguja de La S. Escalamos a Saint Exupery pela face visível nesta foto e o Fitz escalamos pelo outro lado e rapelamos pela via Franco-argentina, que está na aresta sudeste, também visível nesta foto. Edemilson Padilha


12 Brasil no cume do Cerro Fitz Roy! Gabriel Otero


09 Bloco de cordadas mais difícil da via Afanassief, no Fitz Roy Valdesir Machado


07 Ed tendo de driblar o gelo das fissuras na Afanassief Valdesir Machado


06 Foto do pseudo-croqui dos norte-americanos, da via Afanassief, no Fitz Roy Edemilson Padilha


05 Ed, Val e Gabri no cume da Saint Exupéry Edemilson Padilha

A síntese do alpinismo resume-se em uma palavra: autonomia. E autonomia para um escalador significa sair de um acampamento base carregando o estritamente necessário, mais suas habilidades conquistadas ao longo de anos de erros e acertos. É um desprendimento, nos desvencilhamos da mochila cargueira repleta de equipamentos que confere uma falsa segurança a um escalador. E nesta temporada na Patagônia nos aprofundamos nesta arte.

Chegamos em El Chaltén num sábado à noite e fomos recepcionados por nossos "hermanos" argentinos Javi e Loro. Nosso acampamento já estava montado. Era só nos instarmos e prepararmos as mochilas para escalar. Assim fizemos, e doias dias depois iniciamos nossa primeira tentativa. Rumamos para a via Buscaini, na Agulha Saint Exupery, pois queríamos aproveitar cada janela de bom tempo. Esta via foi conquistada em 1968 por uma equipe italiana e percorre a aresta leste da montanha por 850 metros de escalada em rocha e gelo. O nome deve-se a fazer parte da equipe o escalador Gino Buscaini que foi um dos grandes exploradores das montanhas Patagônicas.

Nosso plano era o de escalar em duas duplas: Edemilson Padilha (BRA) e Valdesir Machado (BRA); William Lacerda (BRA) e Gabriel Otero (ARG). Pegamos uma tempestade na décima cordada da via e já era, descemos. Durante o caminho de volta senti que estávamos um pouco pesados. Aquilo me incomodava, no Brasil sempre tentamos reduzir ao máximo o peso para aumentar a velocidade.
Na segunda tentativa resolvemos inovar, e saímos de Chaltén com a intenção de fazer a aproximação, escalar e retornar praticamente sem parar. Os outros escaladores não acreditaram quando saímos do camping com mochilas de 40 litros. Agora éramos três: eu, Val e Gabri. Fizemos a caminhada de aproximação muito mais rápido e quando anoiteceu estávamos atravessando o glaciar para chegar à base da via; começamos a escalar às 2 da madrugada e, ao amanhecer, já estávamos na décima terceira cordada, de um total de 28. Eu e Gabri revezávamos a ponta da corda, pois o Val tinha um dedo do pé estourado por um bloco e estava de "jumar de ouro". Da 14ª à 18ª cordada foi o trecho mais vertical da via, com cordadas de 6a a 6c francês. Depois veio a cordada da "ponte de pedra" que foi impressionante e também deu muito medo, pois tivemos de subir por uma pilha de blocos encaixados que pareciam que estavam para cair. Neste ponto chegamos ao terço final da montanha, onde tivemos muitos trechos com neve e um sem fim de zique-zagues. Quase no final, o Val decidiu guiar uma cordada de 6b com bota num pé e sapatinha em outro; quando chegou ao final pôde avistar o conjunto todo do Cerro Torre. Mais duas cordadas e pudemos curtir a vista do cume da Agulha Saint Exupery, depois de 16 horas de escalada. Comemos, hidratamo-nos e iniciamos os rapéis, os quais adentraram a noite. Quando cruzamos novamente o glaciar, o cansaço já se fazia presente - escutávamos vozes, música e de vez em quando pensávamos que estávamos em um bosque. Foi literalmente alucinante. Pisamos em El Chaltén 48 horas depois de sairmos, e comprovamos nosso estilo leve e rápido, pois durante os rapéis o tempo virou e quando chegamos à cova de la S, que era um ponto protegido, começou a chover. Se tivéssemos demorado algumas horas a mais, talvez não obtivéssemos sucesso.

Alguns dias de engorda em El Chaltén, regados por boulders, slack line, auxílio em um resgate e elegemos nosso próximo objetivo: o Cerro Fitz Roy. Devido a grandes nevascas, a face voltada para o leste estava congelada. Voltamos nossos olhares para a face oeste; avaliamos as alternativas, falamos com o Dean Potter (escalador norte-americano) que já tinha feito a Supercanaleta e com a Roberta Nunes (escaladora brasileira) que já havia feito boa parte da via Afanassief, acompanhada do já falecido Jose Pereira (Venezuelano).

Coletamos todas as informações sobre aquele lado da montanha e decidimos entrar na gigante Via Afanassief , nome do idealizador da Expedição Francesa que a conquistou em 1979. As informações que tínhamos eram desoladoras: 2300 metros de via, sem croqui, pois o Afanassief não quis fazer; na face mais desprotegida do vento, com uma janela duvidosa de 2 dias ventosos; 27 anos que a rota foi conquistada, nunca ninguém tinha conseguido repeti-la; ou seja, tudo a favor...

Saímos de Madsen, nosso camping em El Chaltén, com uma idéia fixa na cabeça: pouco equipo, muita velocidade. Fizemos a caminhada de aproximação que passa pelo camping Piedra Del Fraile e depois pelo bivaque Piedra Negra, onde tiramos um cochilo, pois sabíamos que não passaríamos bem a noite sem nossos sacos de dormir. Cruzamos o Passo Del Quadrado e adentramos no espantoso vale da face oeste do Fitz Roy. Porém, espantados mesmo, ficaram os norte-americanos que estavam no bivaque da base da via, quando dissemos que íamos todos para a mesma via. Nunca ninguém repete esta rota e no dia seguinte teríamos duas cordadas na via, que coincidência.

Encontramos uma pedra plana para dormir no mar de blocos de rocha que é base da via. Por sorte tinha água corrente do glaciar que se derretia. Enchemos nossas 3 garrafas e na volta demos de cara com os restos mortais de um escalador, uma massa de ossos e equipos horripilante; tiramos algumas fotos e as entregamos aos guarda-parques posteriormente. Passamos uma noite gelada dentro de nossos sacos de bivaque, acordamos cedo para o café da manhã e nos dirigimos para a base da via, mas a outra equipe nos passou na rampa de gelo de acesso, pois não levávamos grampons para todos, para reduzir peso. Quando chegamos à base nos disseram: "nós vamos na frente", ao que respondemos: "nós estamos mais leves e iremos mais rápido". Eles não acreditaram e começaram a escalar e nós no seu encalço; eles tiravam o pé de uma agarra e nós já colocávamos a mão. E seguimos nesta "peleia" por quase 1000 metros de via, foi quando chegamos ao crux da via, uma parede empinada de uns 400 metros, com um começo não muito óbvio, gelo nas fissuras e três gringos dizendo que iam montar seu bivaque (era 1:00 da tarde) e que poderíamos passar. Mostraram-nos uma foto plastificada da face oeste do Fitz com a linha da via. Pedimos para tirar uma foto deste pseudo-croqui, o qual nos foi útil mais acima. Voamos por cordadas duras de 6º grau francês e paramos para bivacar quando não podíamos mais escalar pela escuridão. Macarrão, café quentinho, uma repisa torta, cheia de pedras, muito frio; se o bivaque anterior era 4 estrelas, este era só 2 estrelas; por sorte a comida era boa e conseguimos dormir um par de horas.
Amanheceu e pela previsão dos irmãos Huber, teríamos uma quarta-feira esplêndida, mas não era o que se delineava. Muitas nuvens no oeste e que se acercavam ameaçadoras. Estávamos muito alto para descer. Rapelar 1500 metros abandonando todo nosso equipamento não estava em nossos planos. Seguimos adiante, pois o vento não estava forte e as nuvens não muito carregadas. Passamos uma manhã de mãos congeladas, pelo gelo nas fissuras e porque escalávamos na sombra. Mais acima saímos da geladeira e fomos brindados com um sol maravilhoso, um pouco de vento, mas o mais importante é que o Gabri viu o Pacífico! Não sabemos se foi uma visão, pela falta de sono, mas a verdade é que depois das nuvens que estavam sobre o gelo continental, no oeste, o céu estava limpo, o que era um bom sinal.

O Val guiou uma cordada de off widt, a mais dura da via toda, protegendo do jeito que deu, pois nossa maior peça era um camalot #4 e entramos na canaleta final, que leva ao cume. Muitos metros fáceis, porém tendo de desviar o tempo todo das partes congeladas pelo verglás que sempre se forma perto do topo. Escutávamos as rajadas de vento estourando na aresta que nos protegia. Seguimos boa parte em simultâneo e, com céu aberto, às 19:30 pisávamos o cume do Mr. Fitz Roy, depois de 36 horas de escalada! A via Afanassief agora já tinha uma repetição, depois de 27 anos! Estávamos flutuando e ainda de quebra, livramos a via, que antes de nossa repetição tinha partes em artificial!
Um pouco de vento e muita preocupação com a descida, pois não conhecíamos a via de rapel. Fotos rápidas; vestir as botas, pois escalamos toda a via com sapatilhas; colocar as polainas, um grampon; ajeitar as cordas, preparar o material para abandono...e iniciamos os rapéis. De cara já tivemos de sair montando os pontos de rapel, pois havia muita neve e estes estavam escondidos. Descemos no rumo enquanto havia luz, depois nos perdemos completamente e seguimos a intuição, pois não víamos a direção. Buscávamos uma plataforma para passar a noite e não encontrávamos; quanto mais descíamos, pior se apresentava a parede. Até que achamos um lugar para passar a noite sentados, talhamos um platô de gelo com os piolets, derretemos três panelas de neve para fazer suco, que bebemos vorazmente, pois a água já havia acabado antes de chegarmos no cume. Víamos as luzes de Chaltén e isto nos deixava ainda mais ansiosos para descer da montanha. Quando terminamos de nos ajeitar o dia nasceu; por sorte estávamos protegidos do vento que soprava do oeste. Posso dizer que este bivaque era 1 estrela, pois até a comida não esteve boa.
A luz do sol nos deu ânimo novo, mas a alegria durou até o momento em que puxamos a corda e ela enroscou num ponto extremamente difícil de soltar. Este foi um dos momentos mais tensos da escalada, pois estávamos perdidos, tínhamos passado uma noite gelada, sem dormir e agora a corda enroscava. Foi difícil manter a calma e resolver uma coisa de cada vez, sem entrar em pânico. Com malandragem, o Gabri a desenroscou, passamo-la no ponto de rapel, e eis que eu desço 10 metros e encontro o diedro bem marcado da Franco-argentina! Passamos de um estado de pânico para o êxtase. Encontramos o Thomas Huber e seu parceiro Andy mais abaixo tentando a via pela qual descíamos. Eles não entenderam nada, pois todas as cordadas que tentavam a montanha pelo leste haviam sido rechaçadas pelas condições da parede ou pelo vento. E nós vínhamos do cume!

Rapelamos tranqüilamente e mais abaixo paramos pra descansar e comer algo; encontramos um buraco na rocha cheio de água, acho que tinha uns 4 litros. Jogamos um pacote de suco dentro e tomamos com um canudo, foi surreal. Mais sete rapéis na Brecha dos Italianos, que é incrivelmente protegida do vento e pisamos no glaciar. Uma das cordas já era, sua capa estava cortada. Nos encordamos na outra e começamos a cruzar o Glaciar do Passo Superior que dá acesso às covas de gelo e depois ao Lago de Los Tres, onde deixamos o gelo e as gretas horripilantes para trás, para caminhar por uma trilha normal até o Acampamento Base Rio Blanco. Aí tomamos uns mates com os brasileiros e festejamos juntos nossa escalada. Eles nos contaram que os guarda-parques estavam à nossa procura. Seguimos ainda até Chaltén, onde encontramos os norte-americamos que estavam conosco na via e que haviam rapelado do ponto de bivaque no meio da parede. Disseram que estavam muito preocupados e que eles é que tinham contatado os guarda-parques para acionar um resgate.
Foram quase 4 dias da saída de Chaltén até o retorno. Não podíamos acreditar, ninguém podia acreditar, foi uma escalada dos sonhos, que fluiu naturalmente, em que seguimos nossos instintos, nossa intuição e nosso coração. Tudo aconteceu da maneira que deve ser, ou seja, de forma perfeita.

Texto: Edemilson Padilha


História da conquista da Via Afanassief
(fonte: www.tecpetrol.com/patagonicos/cuaderno04)

Na mesma época em que Casarotto lutava para abrir uma rota no pilar norte, um grupo de franceses estava empenhado em resolver um dos maiores problemas do Fitz Roy: abrir uma via em sua muralha ocidental.

Os franceses orientaram sua tentativa para a crista noroeste, que, apesar de ser muito grande, parecia oferecer boas oportunidades de subida. Do grupo, fazia parte Jean Afanassief, astro nascente do alpinismo francês, quem tinha em seu currículo numerosos e importantes feitos sobre as montanhas de todo mundo, e que, 2 anos antes havia podido superar o Fitz Roy com o norte-americano Mike Weiss. Em somente 19 horas haviam feito a primeira repetição da Supercanaleta. Faziam parte da expedição francesa de 1979 Jean e Michel Afanassief, G. Albert, J. Fabre e G. Sourice.

Mesmo com o tempo péssimo, eles lograram transportar víveres e equipo até o pé da parede. Dez dias depois da sua chegada o tempo melhorou permitindo começar a verdadeira ascensão. Enquanto os irmãos guiavam as difíceis cordadas da via, Sourice filmava e os outros encordavam a parede. Depois de subirem 300 metros neste estilo, alcançaram o ponto máximo de precedentes tentativas de outras expedições. Porém, três dias mais tarde, quando voltaram à parede encontraram sua barraca destruída e as cordas fixas inutilizáveis. Todavia, no dia 24 de dezembro, em perfeito estilo alpino, retomaram a escalada e, apesar das grandes dificuldades técnicas (Vº A2 ED+) e do tempo estar piorando, alcançaram o cume após bivacar 4 vezes na parede.

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